Luís Marinho "podemos ficar seriamente comprometidos financeiramente."
O Complexo Desportivo entrevistou Luís Marinho, presidente do Clube Automóvel de Lousada, que se mostrou muito disponível e aberto nas suas respostas. Uma entrevista em que podemos perceber o impacto desta paragem forçada no desporto motorizado e no próprio clube.
Outros assuntos forma colocados relativos à atividade do clube e da preparação do Rali de Portugal.
COMPLEXO – Como esta paragem tem alterado o quotidiano do Clube Automóvel de Lousada?
Luís Marinho – Esta paragem alterou completamente o quotidiano no clube. Eu, e a restante Direção apenas vamos ao clube para resolver assuntos que sejam urgentes, de resto trabalhamos a partir de casa. Em relação a pista parou completamente, está suspensa a utilização da pista quer para provas, testes ou mesmo encontros, isto pelo menos enquanto esta pandemia não estiver minimamente controlada.
Quais as provas e eventos já cancelados?
Para já, até ver ainda não cancelamos nenhum evento, apenas foi adiado, mas, vamos aguardar e creio que no final da primeira quinzena de maio, possamos ter um discurso mais assertivo em relação às provas.
Qual o tamanho do impacto financeiro que terá o CAL com o cancelamento de algumas dessas provas?
O facto de não realizarmos qualquer tipo de atividade, faz com que não tenhamos qualquer tipo de receita, nada mesmo. Temos uma série de compromissos de despesas mensais, compras de equipamentos que fizemos a pensar no melhoramento e nas condições de trabalho para as nossas corridas e atividades, com a falta de atividade nos próximos meses, podemos ficar seriamente comprometidos financeiramente.
Quais as medidas de apoio das entidades públicas ao CAL e seus associados face a esta interrupção?
Já fomos contactados por parte do Município de Lousada para saber o ponto de situação do CAL e se poderiam ajudar em alguma coisa. No final do mês de abril, iremos fazer um apanhado de tudo para elaborar um relatório que nos ajude a perceber se efetivamente iremos ter necessidade de recorrer a alguma ajuda externa, pois só nessa altura sabemos o verdadeiro impacto negativo que ficou para trás e ter uma visão mais próxima da realidade acerca do futuro.
No seu entender qual será o impacto no desporto motorizado com a paragem das competições?
O impacto é sem dúvida negativo. Segundo a FPAK estão suspensas todas as atividades desportivas até 31 de abril, isto segundo a última circular que foi enviada aos clubes, que acredito que se prolongue por mais alguns dias. Para começar, temos a incerteza do regresso das competições, numa visão muito otimista da minha parte, acredito que só em meados de junho possam começar a aparecer as primeiras provas. Ainda a cerca do impacto negativo desta paragem, partindo do princípio que tudo começará a 100%, o calendário desportivo pode ficar muito sufocado, grande dificuldade por parte dos clubes organizadores em encontrar datas para encaixarem as suas provas. Provas de campeonatos a decorrerem na mesma data e na mesma área geográfica, encurtar os intervalos entre corridas, o que complica os timings para reparações, e compromete a presença na prova seguinte, entre outros aspetos que não vou referir, mas que são muito importantes. De realçar, também, é a prolongação do Campeonato de Portugal de Ralicross e Kartcross 2020, até 31 de janeiro de 2021.
Quais os maiores riscos?
Os dois principais riscos que vejo, tem a ver com a saúde e a parte financeira. Primeiro esperar que os pilotos, mecânicos e assistentes se encontrem bem de saúde à data de reinício de época, não haver elementos infetados pelo novo Vírus COVID-19, e no caso de terem estado infetados, estarem totalmente recuperados porque se tal não acontecer pode colocar em risco toda a estrutura da equipa. Em segundo temos o risco financeiro. Tenho conhecimento que cerca de 80% dos pilotos/concorrentes tem a sua própria empresa, o seu próprio negócio e neste momento a economia está parada e estará nos próximos meses e isto poderá fazer com que alguns suspendam a sua participação no campeonato, ou levar ao seu retardamento no regresso. Obviamente, estamos a falar de riscos, mas é de todo o cenário que queremos para o campeonato, por isso temos que ser otimistas e pensar que todos vão regressar mais fortes.
O adiamento do Rali de Portugal trará repercussões económicas. Qual a dimensão e importância para o CAL?
O adiamento do Rally de Portugal pelo motivo que todos nós sabemos já irá trazer repercussões económicas. Se for adiado podemos ainda minimizar essas repercussões, se for cancelado, aí sim será mau quer para a economia do concelho, quer para a economia do próprio país. Relembro que a edição de 2019 do WRC Vodafone Rally de Portugal gerou 141,2 milhões de euros na economia nacional, registando um novo recorde no impacto que o evento provoca anualmente no país e mais de metade deste mesmo retorno verificou-se em despesa direta assegurada por adeptos e equipas nas regiões do Norte e Centro, onde decorreu a prova do ACP, sendo de 73,42 milhões de euros.
Em relação à dimensão, sem dúvida que é um grande desafio e que põe à prova toda a equipa do CAL, em que exige uma dedicação à logística do evento que não podemos comparar com as restantes provas, que se realizam no circuito durante o ano.
Esta prova é muito importante para o CAL, temos que admitir que nos obrigou a aprender muito, continuamos a aprender, a evoluir e ajudou-nos a ganhar mais maturidade e mais experiência na organização de provas, pois trabalhamos com a equipa que organiza o melhor rally do mundo e isso, sem dúvida que nos deixa com orgulho.
Em termos económicos não tem o impacto que muita gente pensa que tem para o CAL, uma vez que o CAL apenas tem a receita dos espaços de Snacks e cerca de 8% dos 50% que são repartidos com o ACP.
Qual será o mês, que no seu entender, deverá ser reagendado o Rali de Portugal?
Para já tudo o que disser é uma incerteza, mas segundo algumas conversas de bastidores e que não passam de rumores, para já claro, é que poderá vir a ser feito em finais de outubro. Carlos Barbosa, como presidente do ACP e presidente da Comissão de WRC, acredito que tudo fará para encontrar uma nova data, uma vez que em relação a outros países, já temos muito trabalho feito, ou melhor, está praticamente tudo feito e isso poderá ser uma boa base de fundamento para encontrar uma data para rentabilizar todo dinheiro já investido.
Nos últimos meses muito se debateu relativamente aos terrenos em que se encontra o Eurocircuito da Costilha. Qual foi a solução encontrada?
Sim, mais uma vez tivemos problemas com os terrenos. Muito resumidamente, desta vez foi com um terreno que foi dado ao CAL há cerca de 30 anos atrás e só em finais de 2019 foi quando nos chegou a primeira reclamação, já com a nova direção.
Temos o nosso advogado, que nos aconselhou a meter uma providência cautelar, avançamos pelas vias legais e judiciais, já fomos a tribunal, em que nos foi atribuída a posse provisória do terreno, ou seja, vamos continuar a utilizar o espaço como sempre utilizamos, pelo menos, até ao final do processo principal.
Esteve alguma vez em causa a realização do Rali de Portugal devido a esse diferendo?
Numa primeira abordagem, no dia em que chegamos ao circuito e estavam a colocar a vedação e os danos que causaram, sim achei que poderia estar, mas depois de colocar a providência cautelar e a rápida audiência no tribunal, assim como a rápida resposta, tranquilizou-nos bastante.
Foi reportado ao Automóvel Clube de Portugal, organizador do Rali de Portugal a situação? Qual a posição tomada?
Obviamente, tiveram conhecimento da situação e confiaram no nosso trabalho e no trabalho do nosso advogado.
Tiveram conhecimento a 3 de março, fomos a tribunal no dia 5 de março e na semana seguinte já tínhamos uma resposta, ou seja, foi tudo tão rápido que numa semana souberam e na semana seguinte já tinham a resposta com a posse provisória a favor do CAL, que quase não teve tempo de lhes criar preocupação.
Qual foi papel do Município na resolução do problema?
O Município esteve sempre desde o primeiro momento ao corrente e atento à situação, também disponível para nos ajudar no que fosse necessário e estivesse ao seu alcance.
Sei também, que houve uma conversa entre o Sr. Presidente da Câmara e alguns moradores, ao qual desconheço o conteúdo da mesma.
Há muitos anos que a ideia de criar um novo circuito em Lousada vem sendo debatida. Qual a posição da CAL sobre o assunto?
Obviamente, a construção de um novo circuito seria muito importante para o nosso concelho, pois permitirá-nos avançar para outras provas internacionais com melhores condições. Sei que não é fácil e ficará muito caro. Sei que o município tem estado a trabalhar também nesse sentido e nós temos feito muita força para que isso possa vir a ser uma realidade.
Quais os fatores preponderantes para voltar a trazer as grandes provas europeias e mundiais (ralicross, autocross, camiões) ao Circuito da Costilha?
O principal fator, seria conseguir homologação internacional, mas para isso precisamos de muitas obras no circuito. Esta interrupção no campeonato e de provas, permitiu nos reorganizar as ideias e as estratégias. Pode ser que até ao final do ano possamos dar mais notícias acerca deste assunto. Como já disse as corridas pararam, mas nós não.
Por fim qual a mensagem que gostaria de deixar aos amantes do desporto motorizado?
Dado o momento que todos nós atravessámos, peço a todos os amantes do desporto motorizado, sócios, pilotos e assistentes, colaboradores e comissários do CAL que tenham uma atitude responsável perante esta pandemia que nos está a afetar a todos. A melhor forma de agradecer é respeitar todos aqueles que estão na linha da frente desta luta, é ficar em casa e seguir todos os conselhos dos Serviço Nacional de Saúde.
Vamos acreditar que tudo vais ficar bem e em breve estaremos todos juntos a celebrar este nosso gosto pelo desporto automóvel dentro e fora de pista.
Até lá protejam-se.
Entrevistador: Luís Leal
Entrevistado: Luís Marinho
Data de publicação: 2020-04-05
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