André Coutinho "Gostava de continuar ligado ao futebol, e irei tirar o curso de treinador"
Por detrás do «glamour» dos grandes palcos e «estrelas», o mundo do futebol é feito de muitos combatentes que, talvez por situações aleatórias da vida ou falta de sorte, não conseguiram o sonho de uma vida, mas que não deixam de ser «craques» respeitados na dimensão competitiva em que se encontram.
Aos 31 anos de idade, o avançado André Coutinho é um desses exemplos. Natural de Sedielos, no concelho do Peso da Régua, foi exatamente no grande clube do concelho que deu nas vistas, antes de rumar ao Minho, para tentar conquistar o sonho no Sporting de Braga.
Não conseguiu a oportunidade que queria, mas conviveu de perto com grandes referências do futebol nacional e internacional. Carlos Carvalhal, Jorge Costa, João Vieira Pinto ou Diego Costa foram alguns dos nomes com quem o reguense privou nos arsenalistas, antes de um percurso desportivo feito em clubes de referência no interior norte de Portugal, com o Resende e o FC Santa Marta em particular destaque.
Numa entrevista concedida ao Complexo Desportivo, André Coutinho faz uma entrevista de carreira, apesar de tudo inacabada, à qual talvez se siga um percurso como treinador em breve, onde poderá passar aos seus futuros jogadores as experiências de um percurso enriquecedor, que o colocou em contacto com realidades tão díspares no futebol nacional.

Complexo Desportivo - Antes das perguntas sobre o teu percurso, comecemos pela tua descrição enquanto jogador. Para quem nunca te viu a jogar, quem é o avançado André Coutinho?
André Coutinho - Enquanto jogador e mais propriamente como avançado, posso descrever-me como um jogador muito rápido, característica que considero a minha maior arma, e alguma qualidade técnica e também bom finalizador, tanto de bola corrida como bolas paradas. Quanto à forma como me posiciono em campo para depois explorar as minhas características, gosto de jogar sobre o lado esquerdo do ataque, mas também como “falso” ponta de lança. Sou destro mas penso que tenho alguma facilidade em jogar também com o pé esquerdo, em função daquilo que forem as solicitações de um lance que eu dispute.
De que forma nasceu a tua paixão pelo futebol, e onde começaste a jogar?
A minha paixão pelo futebol vem praticamente desde que me lembro, já na escola primária estava sempre ansioso pelo intervalo para ir “jogar à bola”. Depois, quando ia para casa, havia sempre tempo para me juntar com os amigos na rua para dar mais umas “porradas” na bola, e este gosto pelo futebol foi sempre crescendo, até que inevitavelmente o meu pai teve de me levar para algum clube, e acabou por ser o SC Régua a abrir-me as portas da modalidade.
A primeira fase importante da tua carreira dá-se na formação do Régua, onde jogas ao serviço da equipa de iniciados ao longo de duas épocas. Que importância teve para ti esta passagem pelo Régua, e quais as pessoas e recordações que mais te marcaram durante este período?
Foi um clube com pessoas que me receberam muito bem, e que me ensinaram a dar os primeiros passos no mundo do futebol federado e com organização, porque até então só dava uns pontapés na bola com amigos e na escola. Foi no Régua que fiz parte da minha formação, durante três anos, e sem dúvida que ficará para sempre marcado na minha vida, tal como várias pessoas que me ajudaram imenso, desde diretores, treinadores e colegas de equipa. Seria até um pouco injusto mencionar várias pessoas porque de certeza que me iria esquecer de alguns, por isso vou mencionar só um que foi o mister Zeca Seminário, o meu primeiro treinador, a pessoa que me começou a ensinar o que era o futebol e a explorar as minhas qualidades.
A etapa seguinte no teu percurso foi a formação do Sporting de Braga. Como surgiu essa oportunidade, e o que te levou a aceitar o desafio de, ainda tão jovem, rumares ao Minho à procura de um sonho?
Tudo começou com um convite feito pelo scouting do Sporting de Braga após um torneio que se realizou na Régua, em que no final da prova demonstraram o seu interesse ao nosso treinador e assim pediram para na época seguinte ir fazer uma semana de treinos na pre-época ao clube. Na época seguinte lá segui eu até Braga, o meu pai durante uma semana inteira levou-me e trouxe-me de volta a casa, até que após um jogo de treino que tivemos no fim-de-semana a equipa técnica pediu para que ficasse de vez e que fizesse parte do plantel da equipa de Juvenis. Aceitei o convite com muita felicidade mas, ao mesmo tempo, fiquei muito apreensivo, pois tive consciência de que seria uma mudança enorme na minha vida. Estava quase a fazer 15 anos na altura e foi muito difícil sair de casa, da minha zona de conforto e de perto da minha família e amigos, mas eu quis arriscar até porque era uma oportunidade única para poder atingir o meu objetivo, que passava por ser jogador profissional, ainda por cima num clube grande como o Braga.
Como descreves o teu percurso no Braga, e que importância teve para ti, enquanto futebolista, essa passagem?
O meu percurso na formação do Braga foi feito de altos e baixos, mas acima de tudo revelou-se uma experiência fantástica. Comecei por fazer uma primeira época muito boa, com muitos golos e assistências, tanto que fui logo convidado a fazer contrato de formação, coisa que me garantia pelo menos mais dois anos no clube, o que para mim seria ótimo mesmo. Mas na época seguinte, no meu primeiro ano de júnior, tive alguma dificuldade em jogar com mais regularidade, mas mesmo assim fui trabalhando porque também sabia que a maioria dos meus colegas já eram de segundo ano, e iria ter a minha oportunidade na época seguinte. Viria a acontecer isso mesmo, comecei muito bem a época e jogava muito mais do que na época anterior mas a nível desportivo a equipa não conseguiu os objetivos mínimos, que na altura eram chegar à fase final de apuramento de campeão, e então por isso também senti, eu e os meus colegas, que não foi uma época muito bem conseguida e dessa forma teríamos muita dificuldade em integrar o plantel principal do Braga na época seguinte, visto que na altura já não existia equipa B.
Como foi importante para ti, olhando agora à distância, conviveres com jogadores como o internacional português Orlando Sá, o Bruno Moreira, que está agora no Rio Ave, ou o Stélvio Cruz, que já representou Angola em duas fases finais da Taça das Nações Africanas?
Foi mesmo muito importante para mim. Cresci imenso enquanto jogador e pessoa, e aos jogadores que referes posso acrescentar o Ricardo Ferreira, guarda-redes do Portimonense, o Diego Costa, que atualmente joga no Atlético de Madrid, entre outros com imensa qualidade que por uma razão ou por outra não conseguiram atingir esses mesmos patamares. Tive a possibilidade também de treinar várias vezes com a equipa principal, porque na altura íamos uns dois ou três a alguns treinos durante várias semanas. Tive então também a possibilidade de na altura conhecer treinadores como Carlos Carvalhal e Jorge Costa, e jogadores como o João Tomás, João Vieira Pinto, Wender, Hugo Leal, César Peixoto, Vandinho, entre muitos outros. Penso que evoluí muito mais nessas poucas semanas que treinava com eles do que propriamente em toda a época que tinha decorrido, porque é sem dúvida outra realidade, outra responsabilidade e outro “andamento”. Posso acrescentar também um jogo amigável que fiz no Municipal de Braga, na altura frente ao Vila Meã, que estava na 2ª Divisão B.
Em 2007/08, sais do Braga e ingressas no São João da Pesqueira, da Divisão de Honra da AF Viseu. Para um jogador jovem como eras na altura, como foi passar de um dos maiores clubes nacionais para as competições distritais?
Era uma situação que já era esperada por praticamente todo o plantel, tirando uma ou outra exceção, de colegas meus que tiveram a oportunidade de fazer a pré-época seguinte no plantel principal. Eu não fugi à regra e saí do Braga sem qualquer certeza do que iria ser o meu futuro a nível desportivo. Foi então que surgiu o convite do Prof. José Carlos para fazer parte da equipa do S. João da Pesqueira. Fiquei muito reticente na altura mas penso que acabou por ser uma época muito positiva a todos os níveis, tanto individual como coletivamente, uma vez que fomos a equipa sensação da Divisão de Honra da AF Viseu naquela época.
Quais os maiores desafios e dificuldades tiveste que enfrentar nessa transição para os seniores?
Muito sinceramente pensei que teria mais dificuldade, até porque vinha de uma realidade muito diferente a nível competitivo, mas consegui integrar-me muito bem no meu primeiro ano de sénior também principalmente com a ajuda de todos os meus colegas de equipa e treinador que, com a sua experiência, facilitou muito a minha integração.
Nas tuas primeiras cinco épocas, representaste cinco clubes diferentes, e tanto celebraste momentos felizes, como o título distrital pelo Vila Real em 2010/11, como momentos menos positivos, como o último lugar com o São João da Pesqueira em 2008/09, ou a descida de divisão do Sátão aos distritais na mesma temporada. Que análise fazes a esse período mais «agitado» da tua carreira desportiva?
Sem dúvida que foram anos um pouco agitados e de certa forma instáveis, como dizes, pois, tanto passei por momentos muito bons como por muito maus, mas hoje, sinto que esses maus momentos também foram muito importantes para o meu crescimento a nível desportivo e também para ganhar alguma maturidade. Ganhei a consciência de que o futebol não é só um “mar de rosas” e as aprendizagens que fiz foram muito importantes para, em anos futuros, não cometer os mesmos erros.
Em 2012/13, inicias um percurso de cinco temporadas no Resende, e em três das quais a lutar pelo título distrital de Viseu. Que balanço fazes deste percurso no Resende?
Foram cinco anos muito bons, provavelmente os melhores que tive a nível individual e coletivo como sénior. O primeiro ano foi um pouco atípico por causa da reestruturação dos campeonatos. Na altura iria desaparecer a 3ª Divisão Nacional, e então teriam que descer muitas equipas para a divisão inferior, e nós estivemos na luta pela manutenção até à última jornada, mas foi conseguido esse objetivo principal. A partir desse primeiro ano foi sempre a melhorar, e colocámos o clube com num patamar bem alto naquela divisão. Passámos a ser muito respeitados por todas as equipas que jogavam contra nós, principalmente no nosso estádio, em que era imensamente difícil alguém nos tirar pontos. Como dizes e muito bem, estivemos pelo menos três vezes na luta pelo título distrital que, por um ou outro pormenor, não acabou por surgir, apesar de sentirmos que pelo futebol praticado seriamos os justos vencedores em pelo menos uma das vezes. A nível individual foram também épocas excelentes onde atingi números bastante interessantes, fazendo alguns golos e assistências.
Ao longo de cinco épocas, quais as recordações mais marcantes com que ficas, e que pessoas mais te marcaram naquele clube?
As recordações com que fico são principalmente das pessoas que estavam à frente do clube, pessoas muito dedicadas e que nos deram sempre tudo para que pudéssemos colocar em prática o nosso futebol da melhor forma possível. Refiro-te principalmente o presidente na altura em que eu fui para lá, e que se manteve connosco pelo menos quatro anos, que foi o Alexandre Bastos. Se não é o melhor, é dos melhores com quem trabalhei, e a nível distrital não há melhor com toda a certeza.
Ao fim de cinco anos de Resende, e de intensas lutas pela subida de divisão, qual o sentimento que fica, da tua parte, pelo clube?
Fica o sentimento de alguma tristeza por não conseguir pelo menos um título por aquele clube que tanto fez e tanto merecia para que isso acontecesse, apesar da sensação de dever cumprido, e da enorme honra por ter envergado aquela camisola.Em 2017/18, começa o teu percurso no Santa Marta. De que forma surgiu essa possibilidade, e porque aceitaste este novo desafio?
A possibilidade de ir para o Santa Marta surgiu por meio de um convite feito pela direção e também pelo então treinador Paulo Ferreira. Gostei do projeto que eles me apresentaram e da ambição que tinham em colocar novamente o clube nos lugares cimeiros e a lutar por títulos, e senti também que poderia ser a altura certa para “mudar de ares” e experimentar outro campeonato, agora com outra experiência e conhecimento que me davam mais confiança para fazer mais e melhor.
Ao longo de três temporadas, a última das quais inacabada, que balanço é possível fazeres do trabalho já realizado?
Ao longo destas três temporadas bem distintas posso fazer um balanço bastante positivo. A primeira época não foi muito fácil para mim nem para a equipa, pois tivemos momentos de muita instabilidade a nível desportivo, com três treinadores, mas apesar de tudo fizemos uma boa ponta final de campeonato. Na segunda época, e depois de trocarmos de treinador, acho que fizemos uma época muito melhor, e a meu ver tínhamos a melhor equipa do campeonato. Praticávamos um futebol muito atrativo de ataque, e fomos inclusivamente o melhor ataque da prova, à frente do Vila Real que, na altura, fez um campeonato imaculado. Terminamos mesmo assim na quarta posição, que não condizia nem de longe nem de perto com a nossa qualidade. E nesta época, que já se deu por encerrada de forma tão prematura, penso que estávamos a realizar um campeonato muito positivo e onde já tínhamos demonstrado que poderíamos rivalizar com todas as equipas que estavam na frente. Íamos agora para a fase mais crucial da época, e a meu ver tínhamos todas as condições para terminar numa das três primeiras posições.
Quando olhas para os anos que ainda tens de futebolista pela frente, que objetivos ainda tens definidos para ti, antes de ponderares dar por terminado o teu percurso?
Agora com 31 anos, e a aproximar-se a altura de “pendurar as botas”, já não ambiciono jogar em escalões superiores porque tenho a noção das dificuldades, apesar de achar que ainda poderia dar uma “perninha”. Quero principalmente continuar a praticar o meu futebol com a motivação e alegria de como se tivesse 18 anos e ajudar a equipa onde estiver a atingir os seus objetivos.
Com uma experiência tão vasta e enriquecedora como jogador, em vários níveis competitivos, de que forma perspetivas a possibilidade de continuares ligado ao futebol depois de «pendurares as chuteiras», e que ambições apontas para esse eventual percurso?
Muito sinceramente ainda não pensei muito nisso, mas sei que tenho de começar a fazê-lo porque se aproxima rapidamente essa fase. Gostava de continuar ligado ao futebol, e irei tirar o curso de treinador para poder no início treinar ou fazer parte de uma equipa técnica, para assim passar a minha experiência e conhecimento do futebol aos mais novos.
Depois de teres tido a oportunidade de representar um dos grandes clubes do desporto nacional, mas teres vivido a quase totalidade da tua carreira como sénior nos distritais, fica algum tipo de tristeza ou frustração por não teres conseguido oportunidade de competir a um nível superior?
Sem dúvida que por vezes penso nisso e, de certa forma, sinto um pouco de tristeza e frustração por não ter chegado ou, no meu caso, não me ter mantido no alto nível do futebol português a nível sénior e como profissional de futebol. A verdade é que nem todos os que querem e têm qualidade lá chegam e conseguem manter-se durante muitos anos, pois temos todos a noção do quão difícil é. E se é verdade que tive uma grande oportunidade e não consegui, ganhei muitas outras coisas e conheci pessoas fantásticas no futebol distrital que ficarão para sempre. Tive ainda uma curta passagem pela antiga 3ª Divisão Nacional ao serviço do Sátão, com oportunidade de jogar a Taça de Portugal e frente a clubes que hoje estão na primeira liga. Foi uma boa parte de época em que vivi muitas experiências marcantes, e não fossem na altura as dificuldades financeiras que o clube atravessava, nunca se sabe como seria o resto da época e depois o futuro daí para a frente poderia ser algo diferente, mas é porque já tinha de ser assim.
Entrevistador: Gonçalo Novais
Entrevistado: André Coutinho
Data de publicação: 2020-04-11
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