Joel Mendes "AF Porto decidiu bem e imperou acima de tudo o bom senso."
Joel Mendes é treinador de futebol da equipa doo Futebol Clube Nespereira, emblema que esta época competiu na 2ª Divisão AF Porto, que com o término das competições viu a subida de divisão como garantida.
Aos 33 anos Joel Mendes é técnico Nível II, já com uma larga experiência. Iniciou nas camadas jovens da AD Lousada, como sénior estreou-se no emblema da sua terra natal, a ARA São Miguel, mas foi na ADR Aveleda que conseguiu conquistar os primeiros títulos como treinador, no futebol concelhio. Na segunda época a treinar o emblema do Nespereira e com o objetivo cumprido da subida, sendo quase certa a sua continuação em Nespereira em 2020/2021.

Entrevistador: Luís Leal (Complexo Desportivo)
Entrevistado: Joel Mendes
Complexo - À semelhança de outros campeonatos, a 2ª Divisão Distrital AF Porto também terminou de uma forma precoce e abrupta, justamente quando lideravas. Foi positivo e justo, no teu entender a deliberação da AF Porto?
Joel Mendes - Vivemos uma situação que ninguém contava e certamente esperamos nunca mais a viver, mas toda ela trouxe uma necessidade de resposta rápida e com a obrigatoriedade do isolamento social e a falta de uma data para o término da pandemia a FPF teve de reagir. Com os campeonatos acabados penso que a decisão da AF Porto foi a mais acertada. Não é a mais justa, isso seria acabar os campeonatos, mas era difícil adiar muito tempo um campeonato amador, e então tomou-se a medida de subir quem ia em lugares de subida. Nós preferíamos jogar, e tínhamos condições para subir mesmo tendo ainda jogos muito difíceis, mas acreditávamos que íamos conseguir, fomos a equipa que mais liderou, com mais vitórias e levávamos algum avanço, mas podiam haver equipas que também tinham condições e iam lutar por isso e que lhes foi negada essa hipótese, mas não seria justo a época ser cancelada e todo este esforço, entrega, todos estes pontos não valerem. Ninguém ganha nada a preferir que isto fosse cancelado, nem em preferir que estes ¾ da época não valessem. Na minha opinião, a AF Porto decidiu bem e imperou acima de tudo o bom senso.
Várias equipas da região, podem ter no futuro situações complicadas relativas a questões económicas por causa da pandemia Covid-19. Quais os maiores riscos na preparação da próxima época?
Os clubes podem sair desta situação em condições muito más, ou pelo menos com grande abanão e a terem de se reajustar ou mudar a sua política. É uma situação que faz o futebol parar, e não tanto em divisões inferiores onde anda menos dinheiro, mas nas divisões onde se paga a jogadores, se os clubes não tiverem receitas é complicado. Mas, em termos gerais, todos irão sofrer, ao nível dos patrocínios as empresas vão com certeza cortar em apoios e mesmo em assistência aos jogos tenho ideia que enquanto as pessoas não se sentirem seguras podem não ir tanto como iam.
Em relação a preparar a próxima época é normal que afete, quem concede ajudas de custas a jogadores não sabe quanto poderá dar e para todos os clubes as reuniões atrasam, os convites a jogadores, o planeamento de quando se pode ou não treinar, se o campeonato irá começar em datas próximas das habituais ou se vai adiar. Isto para não falar de clubes que têm marcadas eleições e onde este planeamento poderá ser muito mais complicado.
Mas, ainda estamos em abril e dará tempo para as coisas serem bem feitas e articuladas, e certamente, todos nós já temos saudades do futebol.
Cada vez se vê mais ex: jogadores a assumirem o cargo de treinadores em equipas seniores, mesmo sem terem os devidos cursos. De que formas achas isso positivo e negativo para o futebol?
Em relação aos cursos podemos estar de acordo ou não com os níveis, com as formações, o tempo, custo, isto é tudo alvo de crítica, no entanto o que devia ser certo é que devia ser igual para todos e não é isso que acontece, principalmente pelas artimanhas dos dirigentes dos clubes.
Acredito que os ex jogadores, principalmente os de topo têm conhecimento e principalmente experiência para que saibam e acrescentem algo positivo ao futebol, mas fazendo um caminho que os leve a subir, a batalhar, a ter sensibilidade para ser treinador e não como vemos em muitos casos começar em primeiras ligas e por isso muitos falham ou andam agarrados a campeonatos sem expressão depois disso. Sendo ex jogador ou não todos são importantes, podemos aprender com todos e todos podem fracassar ou chegar ao topo, ou até as duas coisas num treinador só, mas e muito do que está mal é que vale mais ter conhecimentos do que ter conhecimento e a regra é para todos.
Os dirigentes têm um papel fundamental no crescimento dos clubes. Como avalias o dirigismo no futebol amador e em particular no concelho de Lousada?
Não posso comparar com o anterior pois não tenho conhecimento disso, mas parece-me que se está a dar mais enfase à equipa e a dar todas as condições aos jogadores para todos ajudarem o clube, em vez de se preocuparem com extra equipa e futebol. Direções jovens, de grande dinamismo e ambição estão a tentar, apesar de difícil, melhorar as suas condições e o nível dos jogadores. Para aumentar o nível das equipas e mesmo em termos de apoios, penso que haverá muitas equipas em Lousada, mas é importante que as associações não acabem, que se reinventem e trabalhem todas para principalmente agradar aos seus sócios e adeptos.
Como lidas com a pressão de obter resultados positivos?
Felizmente, tive projetos onde tinha grandes objetivos e outras vezes se calhar muitas até, falhei. Não é muito fácil visto que sou muito crítico em relação a mim e penso sempre que poderia fazer mais e sou bastante pessimista. Mas, a melhor forma de tentar lidar com isso é a preparação, é saber que nos preparamos da melhor forma, que procuro conhecimento, saber que dei aos jogadores todas as ferramentas para que eles possam resolver as dificuldades nos jogos, que os preparo da melhor forma, é muito importante que todos estejamos no mesmo “ barco “ para contornar qualquer obstáculo.
Na tua opinião qual é a diferença entre as competições da AF Porto e das competições da AFALousada em que venceste alguns troféus importantes?
As competições da AF Porto contam com grandes equipas e grandes condições e que vai naturalmente piorando até chegar à 2ª distrital. Se comparar as competições da AFA Lousada com a 2ª distrital a diferença não é assim tanta quanto isso. Existem alguns jogadores que num pensamento de subir divisões preferem não jogar em campeonatos como a AFAL, a ambição de subir patamares também é um aliciante para os clubes e a falta de policiamento também um entrave. De resto vejo um campeonato muito idêntico e a prova é que clubes que saem da AFAL para a distrital acabam por subir em pouco tempo. Ambos os campeonatos têm equipas boas, que jogam bem, bons jogadores, mas também existem clubes demasiados agressivos, condições fracas, campos sem dimensão. São dois campeonatos semelhantes.
Foste treinador do Aveleda e depois foste para o Nespereira. O que te fez mudar?
A decisão de sair do Aveleda foi tomada muito antes do convite do Nespereira. Senti que mesmo gostando muito de Aveleda, dos jogadores e da direção era tempo de fechar o ciclo e foi uma decisão comunicada ao presidente no mês de janeiro/fevereiro e mesmo depois disso dei sempre o meu melhor para o bem do clube. O Nespereira apareceu depois de decidir sair de Aveleda, apresentou o projeto, falamos, gostei das pessoas e acreditei que tínhamos pernas para andar. Foi uma decisão difícil, muita gente comparou os clubes e achou mal a minha decisão, mas senti que tinha de mudar e vi no Nespereira uma boa hipótese. Os primeiros tempos não foram fáceis, mas penso que acaba por ser uma aposta que deu positivo.
Sabemos que foste colega de Ricardo Barros, atual técnico do Citânia de Sanfins, quando tiravas o curso de treinador. Costumas partilhar ideias ou falar sobre jogadores com outros técnicos?
É normal que com vários anos nesta modalidade conheça e vá conhecendo pessoas da área, e a partilha, no meu entender, faz-nos crescer, evoluir e claro que temos mais conhecimento, que é isso que procuramos. Por isso, tal como falo com o Ricardo falo com outros técnicos e mesmo com jogadores, na obtenção de uma melhoria no meu jogo, na minha equipa, ou mesmo ter um conhecimento maior sobre os adversários que muitas vezes é a única forma de se ter alguma informação sobre eles.
Como caracterizas e defines o teu Modelo de Jogo?
Apesar de alguns ajustes e adaptações tenho um modelo de jogo bem definido e a minha grande preocupação é que todos sintam e lutem por aquilo e é com ele que podemos evoluir e ganhar mais vezes. Mas, é diferente estar por exemplo nos sub 17 a treinar 4 vezes por semana, do que estar num clube sénior a treinar apenas 2, depois do trabalho e onde muitas vezes se apanha jogadores a começar a jogar futebol, é aqui que entra alguma adaptação ao mesmo, pois é preciso treino para que todos os momentos de jogo estejam bem definidos em cada jogador, de forma a que todos estejam identificados com todo esse processo.
Não faço do meu modelo de jogo uma moda, acredito seriamente que com ele é que podemos ganhar mais vezes, é a forma que vejo o futebol, que mais me agrada e que certamente agrada a quem queira jogar futebol.
Então o meu modelo de jogo passa mesmo por isso, pela posse de bola, pela forma coletiva de pensar o futebol, criação de espaços, gosto de ver uma equipa jogar desde trás, ainda acredito que quem faz isso joga melhor, mas sempre com o objetivo de chegar à baliza. No processo defensivo que todos se envolvam não só para a equipa adversaria não chegar à nossa baliza, mas para recuperar mais rápido possível a bola, que é o que queremos. Depois tem algumas nuances independentemente do adversário e claro que me entusiasma a liberdade criativa e não vejo um modelo tão rígido para limitar os jogadores nesse aspeto.
É uma forma de pensar o futebol perto disso, que queremos sempre evoluir, complexa de se explicar de uma forma assim superficial.
Outra coisa que é muito importante é as características dos jogadores para tirar sempre o máximo deles.
Apesar disto tudo, para o nível que estou, cada vez tenho mais a certeza que mais importante que isso tudo é a personalidade, ambição, compromisso de todos para obter os resultados desejados.
Tens acompanhado as camadas jovens de outros clubes no concelho? O que falta para haver mais equipas locais a competir na 1ª Distrital?
As equipas de Lousada têm qualidade e aproveitam muitos jovens que saem da formação e que nessa mesma formação conseguem ter uma carreira interessante. No entanto, também sabemos que existem mesmo no concelho de Lousada equipas que atraem mais esses jovens com qualidade, a AD Lousada com duas equipas, o Caide e o Aparecida são, pela divisão e condições mais chamativos. No entanto, as formações da 2ª divisão conseguem ter boas equipas e conseguem obter lugares de promoção e na 1ª já vamos contar com muitas equipas do concelho.
Mas, o aspeto mais importante é a competitividade da 2ª distrital, existem muitas equipas com qualidade, que aproveitam jogadores vindos de divisões superiores, que aproveitam jovens com boa formação, como em Penafiel, Amarante e dificultam a tarefa.
De que forma vês a evolução do futebol e do desporto em geral no concelho de Lousada?
Vejo o desporto a crescer, com mais praticantes sejam federados ou não. As boas condições para a prática das mais diversas modalidades trazem mais pessoas ao desporto e a vidas ativas. Em Lousada melhoraram infraestruturas ligadas ao futebol, ao ténis, ao hóquei, aos desportos de combate, natação e depois quem quiser exercer atividade física pode. Isso faz com que o desporto, em geral, cresça muito e em cada modalidade com melhores condições e atletas mais capazes, assim o desporto evolui.
Mas, para tudo isso é importante que se saiba tirar o máximo de cada clube, dando o seu melhor e trabalhando para que tudo seja melhor.
No futebol as condições são boas, é preciso trabalhar para que tudo seja melhor e ligar mais as pessoas aos clubes.
O que falta para um clube como FC Nespereira para almejar outros patamares?
É difícil a um clube como o Nespereira ter como objetivo subir patamares ainda antes de criar bases para se impor neste patamar atual, ou seja, antes de pensar subir, o Nespereira vai, certamente, melhorar o seu campo de jogos, é importante uma bancada, para já não falar de um sintético que trazia mais qualidade ao clube. Outro aspeto importante para trazer jogadores são as ajudas de custo, e sendo o Nespereira um clube que trabalha com a boa vontade de todos e com a ´´carolice`` é difícil fazer esses planos.
O Nespereira tem muita gente boa e vontade de trabalhar, vamos esperar o que o futuro irá trazer, mas é difícil planos ambiciosos.
Irás continuar no comando técnico para a estreia na 1ª Distrital?
Estou bem em Nespereira e sinto que o meu ciclo ainda não acabou, da mesma forma que sinto que a direção está do meu lado. Apesar de ter a ambição de chegar um pouco mais alto e lutar noutras divisões, penso que o meu futuro irá passar por Nespereira, no entanto existem questões que têm de ser abordadas, ver jogadores para o novo ano e definir objetivos.
Breve vamos falar, perceber todas as questões e decidir da melhor maneira.
Data de publicação: 2020-04-20
Comentários
-
De momento esta notícia não tem comentários à apresentar.
