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Carlos Soares “fim das terceiras divisões em ambas as modalidades foi um erro"

Se há exemplo de que juventude rima com competência e experiência, Carlos Soares ilustra bem essa premissa no distrito de Vila Real.
Depois de passagens muito interessantes pelo futebol e o futsal enquanto treinador, o cargo de diretor técnico regional da Associação de Futebol de Vila Real coloca-o perante o desafio de desenvolver duas modalidades num distrito em que os recursos financeiros, humanos e logísticos são sempre escassos.
Na sua entrevista ao Complexo, Carlos Soares destaca o trabalho de cinco anos na AF Vila Real, todo o percurso de promoção da qualidade dos processos de trabalho desenvolvidos pelos clubes, todas as ações de formação e cursos de treinadores ministrados nos últimos anos, toda a luta para elevar a competitividade de uma região onde existe qualidade, mas nem sempre as condições ideais para a desenvolver.
Fala também das dificuldades mais do que previsíveis para as próximas épocas, e chama a atenção para a necessidade de um maior apoio por parte da Federação Portuguesa de Futebol para distritos com maiores carências no domínio financeiro que, por sua vez, coloquem em causa a sua sustentabilidade. 
Mas também aborda um futuro em que acredita ainda existir uma margem muito interessante de desenvolvimento do futebol e futsal do distrito, em particular na vertente feminina. Para isso, e quando as restrições da pandemia forem “aliviadas”, Carlos Soares espera realizar um périplo de contactos com as entidades locais, no sentido de mobilizar a sociedade e as instituições para a criação de condições para o crescimento do desporto no distrito, o grande objetivo do trabalho do diretor técnico regional.
 
Complexo Desportivo - Antes de falarmos do teu trabalho na AFVR, é incontornável falamos do momento atual. É oficial o cancelamento das provas de futebol e futsal tuteladas pela FPF e pela AFVR. Qual o teu posicionamento em relação a esta medida que foi tomada?
Carlos Soares - Estamos a viver uma situação complexa e única. O meu posicionamento é de profundo respeito e solidariedade para com clubes, jogadores, treinadores e dirigentes, mas também para com as pessoas que nas entidades de tutela, FPF e AFVR, têm que tomar decisões difíceis num contexto que ninguém queria estar a viver. Aqui, permite-me esclarecer, não falo em causa própria, pois estas decisões são da responsabilidade das respetivas Direções, da FPF e da AFVR, e não do gabinete técnico ou do diretor técnico regional.
 
Mas concretamente sobre o cancelamento das provas, a não atribuição de títulos e o facto de não haver subidas nem descidas, qual a tua opinião?
Como tive oportunidade de referir em duas entrevistas anteriores, face à complexidade do contexto, seria impossível haver decisões consensuais. Eu próprio, a nível pessoal, procurei fazer uma reflexão e antecipar diferentes cenários. Todos tinham prós e contras e em todos havia sempre alguém a ser beneficiado e alguém a ser prejudicado, no plano desportivo, entenda-se. Era inevitável! Pensando exclusivamente no plano desportivo, todos nós preferíamos acabar as competições dentro do campo, jogando, mas a incerteza é imensa e se é difícil prever quando poderemos voltar a fazer uma vida minimamente normal, ainda mais é prever quando podemos voltar a jogar futebol e futsal. A complexidade desta questão obriga-nos a analisá-la de várias perspetivas. Questiono, por exemplo, se os clubes amadores teriam condições para continuar as competições ainda esta época. Conheço casos de clubes, mais do que um, que deveriam receber por esta altura tranches significativas de patrocínios e subsídios e que não os receberam. 
Assim, ao nível da decisão fundamental, dar por concluídas as provas ou mantê-las suspensas, estou de acordo com a decisão do cancelamento. Acho que é preferível ter a coragem de tomar uma decisão já e os clubes saberem com o que contam, podendo reorganizar-se e perspetivar o futuro de forma atempada, do que viver mais tempo na incerteza. Esta época, invariavelmente, já está estragada, pelo que acho fundamental diminuir os estragos da próxima época também, até porque esta situação toda vai provocar, invariavelmente, mudanças mais ou menos profundas nas nossas vidas e, por consequência, nas atividades desportivas também.
Relativamente à não atribuição de títulos e à não existência de subidas e descidas, aqui a minha opinião não é tão segura. Custa-me imenso não ver reconhecidos os méritos de quem investiu tempo, dedicação e recursos vários, incluindo financeiros, para alcançar os objetivos a que se propôs esta época.
É injusto, sem dúvida! Contudo, e ao mesmo tempo, também não considero que seja inteiramente justo atribuir títulos, subidas ou descidas, de acordo com as classificações à data da suspensão de provas, até porque isto obrigava a olhar especificamente para cada competição e tomar decisões diferenciadas, que teriam igualmente graus de injustiça associados. Por exemplo, e falando ao nível da AFVR, numa competição com número ímpar de equipas, jogada todos contra todos a duas voltas, à data de suspensão das provas as equipas não estavam todas em igualdade de circunstâncias, pelo que haveria quem saísse prejudicado. Poder-se-ia, por exemplo, utilizar a classificação no final da primeira volta, onde em termos de número de jogos as equipas estariam todas em igualdade de circunstâncias. Contudo, a classificação sofreu alterações no que já se havia jogado na segunda volta e, assim, onde ficaria o respeito pelo esforço e mérito dos que nesta fase já tinham melhorado a sua classificação? Percebes agora porque acho que é impossível ser-se inteiramente justo face ao atual contexto? Neste momento, o conceito de justiça para cada clube, jogador, treinador ou dirigente estará muito condicionado pela situação desportiva em que se encontrava à data da suspensão das provas. É legítimo, mas como em tudo neste contexto, não é o inteiramente justo.   
Permite-me terminar esta questão, até porque a resposta já vai muito longa, esclarecendo o seguinte: na decisão sobre os escalões de formação, houve uma falha de comunicação da FPF e não foram ouvidas todas as Associações, e a de Vila Real foi uma delas. Na decisão sobre as competições seniores, todas as 22 Associações foram ouvidas. Naturalmente, presumo (porque não tenho conhecimento do que foi falado nessa reunião), que umas concordaram totalmente com esta posição, outras concordaram parcialmente e outras discordaram. Com todas as informações que dispunha das entidades competentes e após ouvir os seus filiados, a FPF tomou a sua decisão. Foi uma forma correta de fazer as coisas, mas que não vincula ninguém, a não ser a própria FPF, à decisão tomada. Contudo, e conhecida a decisão, outra opção não restava às Associações Distritais e Regionais que não aceitá-la e respeitá-la. A partir daqui, é natural que as diferentes Associações tenham tomado uma decisão idêntica ao nível das competições distritais, porquanto a FPF ao decidir que não haveria subidas e descidas nas competições nacionais, automaticamente impediu qualquer subida do distrital para o nacional.
Assim, e embora não concordando na íntegra com a decisão da FPF, aceito-a e respeito-a.
 
A preparação da próxima temporada é ainda uma “incógnita”. De certeza que vos têm chegado as várias angústias e preocupações dos Clubes. O impacto económico que a pandemia vai ter no distrito, com a subsequente escassez de apoios indispensáveis às atividades desportivas será um problema e poderá até haver uma redução do número de Clubes inscritos nas provas da AF Vila Real. Dentro das suas competências e possibilidades, o que pode a AF Vila Real fazer para prevenir e tentar minorar o mais possível uma próxima temporada que poderá ser mais difícil para os clubes?
Sei que a Direção da AFVR está a trabalhar de forma empenhada neste processo. A FPF colocou já um fundo de apoio à disposição dos clubes que disputam as suas competições. Se é verdade que há Associações, as maiores, que têm uma sustentabilidade financeira que lhes permite avançar com apoios próprios aos seus clubes, não é menos verdade que as Associações de pequena/média dimensão não têm consistência financeira para poder tomar decisões e apoiar devidamente os seus clubes por si próprias. Face a isto, sei que a Direção da AFVR está em conversações com a FPF no sentido de poder obter um apoio efetivo para direcionar aos clubes de âmbito distrital.
 
Entrando agora no principal motivo desta entrevista, ao fim de cinco anos como diretor técnico regional da AF Vila Real, que balanço te é possível fazer do trabalho desenvolvido durante este período?
Sem dúvida, o balanço é muito positivo. Hoje, a AFVR está muito mais próxima dos Clubes e dos seus agentes desportivos, o que permite não só ter linhas de comunicação bem abertas para se debater e trabalhar em conjunto pela evolução do futebol e futsal distritais, como também permite à Associação conhecer e perceber melhor a realidade dos seus clubes, de forma a poder também ajudar no seu crescimento. Destaco a criação de novas provas (taças e supertaças em escalões onde não existiam, bem como a Taça Transmontana), uma melhor organização das nossas provas (com a criação de um regulamento por prova e de calendários anuais), as alterações promovidas aos diversos quadros competitivos (aqui ainda muito há a melhorar, mas destaco as alterações aos formatos competitivos para que, independentemente do número de equipas, todos os escalões tenham um período mínimo aceitável e considerável de competição, bem como o ajustamento das competições às etapas de desenvolvimento do praticante de futebol ou futsal, nomeadamente tornando informais as provas dos escalões que não devem ser formais, como é o caso dos Benjamins), o aumento do número de seleções distritais e do seu nível competitivo, a aposta na formação de treinadores e o trabalho desenvolvido no âmbito do processo de certificação de entidades formadoras. Foram cinco anos de crescimento a vários níveis, como por exemplo no número de praticantes de futebol e futsal, e apesar de todas as dificuldades inerentes a uma associação de pequena/média dimensão do interior, achamos que ainda podemos crescer mais e a mais níveis.
 
Nos seniores, o distrito tem, no futebol, uma equipa profissional na II Liga, cinco no Campeonato de Portugal e uma equipa feminina na 2ª divisão nacional sénior, sendo que no futsal tem uma equipa no Nacional feminino, e três na 2ª Divisão Nacional. Como interpretar estes números?
Na minha opinião, a interpretação tem que ser positiva. Se queríamos ter mais? Óbvio que sim, queremos sempre mais, mas acho sinceramente que são números de destaque. Ter este número de equipas em competições nacionais seniores mostra que há bom trabalho a ser feito pelos nossos clubes, caso contrário, não tínhamos tantos, e alguns já há vários anos, a manterem-se nas competições nacionais.
 
Que consequências tiveram para os clubes do distrito, as extinções das terceiras divisões nacionais tanto de futebol como de futsal?
Na minha opinião pessoal, o fim das terceiras divisões em ambas as modalidades foi um erro. Não significa isto que, à data, não achasse que os formatos competitivos das competições nacionais não necessitassem de uma reformulação, contudo, acho que a mesma não passaria pela extinção destas provas. Recordo que, na altura dessa extinção, ainda não estava na Associação, pelo que é mesmo a minha opinião da altura, enquanto treinador. Neste momento há um reconhecimento unânime, por parte da FPF e das Associações, que é necessário promover alterações aos atuais quadros competitivos, especialmente do Campeonato de Portugal e da 2ª Divisão de Futsal, o que na minha opinião tem que passar pela diminuição de equipas nestas provas e criação de um patamar intermédio entre estes campeonatos e as competições distritais. Esta reformulação é importante para melhorar a competitividade de todas as provas, mas também para salvaguardar a sustentabilidade dos clubes a vários níveis, uma vez que o “salto” atual do distrital para o Campeonato de Portugal ou para a 2ª Divisão de Futsal é muito grande. Tenho conhecimento que estas alterações estão já a ser discutidas em sede própria pela FPF, sendo importante que salvaguardem não só os fatores que em cima referi, mas também a importância da manutenção da representatividade geográfica nas provas nacionais.
 
Ao nível da formação, quer na vertente masculina quer feminina, que análise se pode fazer à evolução competitiva das equipas nos vários escalões, e à forma como as mesmas se têm exibido nos campeonatos nacionais?
Na formação masculina, temos que fazer análises diferentes no futebol e no futsal, face aos diferentes quadros competitivos. No futsal, a formação abaixo do escalão de juniores é recente no nosso distrito e de ano para ano é notório um crescimento da qualidade das equipas e dos jogadores. Prova disso é a forma cada vez mais competitiva como os nossos clubes disputam as taças nacionais de iniciados, juvenis e juniores. Aqui, o apuramento para campeonatos nacionais é mais difícil, pois não é como no futebol em que ser campeão distrital dá imediatamente acesso ao campeonato nacional na época seguinte. No futsal, o campeão distrital tem que disputar uma taça nacional com outros campeões distritais, o que torna difícil o acesso ao campeonato nacional. Não obstante, e como referi atrás, de ano para ano os clubes que nos representam têm tido melhores prestações, o que nos dá esperança de em breve podermos ter equipas nos campeonatos nacionais de formação.
No futebol, tirando o GD Chaves que se tem mantido durante mais anos consecutivos nos diferentes campeonatos nacionais, tem sido difícil as equipas que sobem manterem-se naquele patamar. Na minha opinião, a diminuição da população jovem nos últimos anos e o aumento do recrutamento de jogadores em idades mais baixas por parte dos clubes ditos “grandes”, são duas dificuldades acrescidas para se poderem construir equipas competitivas. A este nível, creio que a criação da 2ª Divisão Nacional quer nos juvenis, quer nos iniciados, vai ser benéfica para os clubes da nossa região se poderem tornar mais competitivos a nível nacional. É pena que face a este contexto provocado pela pandemia, estas competições possam não se iniciar em 2020-2021, como estava previsto, mas quando se iniciarem serão benéficas para as nossas equipas.
No feminino, não temos equipas de formação no futsal. No futebol, o SC Vila Real competiu este ano na 2ª Divisão Nacional sénior, com uma equipa que já vem a jogar no clube há alguns anos, primeiro em competições masculinas e depois no campeonato nacional sub-19. Para alem desta equipa, vem aí uma nova “fornada”, numa equipa que este ano jogou o campeonato sub-13 com os rapazes, mas que tem boas perspetivas de na próxima época poder jogar o campeonato nacional sub-19.
 
As assimetrias de desenvolvimento entre o litoral e o interior refletem-se também no futebol, com uma grande dificuldade de as equipas de distritos como Vila Real conseguirem estabilizar-se, durante períodos de tempo longos, em provas nacionais, isto excluindo o Chaves. Que fatores estão na base desta assimetria, e o que terá de ser feito pelas entidades que tutelam o futebol nacional, para tentar inverter esta situação?
O principal fator é, sem dúvida, o decréscimo da população no interior do país. Nunca me esqueço, quando entrei na AFVR o Sr. Leonel disse-me muitas vezes, “os outros não são melhores do que nós, a diferença é que eles têm gente e nós não, porque se tivéssemos gente erámos melhores que eles”. De facto, este é um grande problema, pois a diminuição da densidade populacional retira ao movimento associativo e aos clubes recursos humanos vários, desde jogadores, a dirigentes, a treinadores, entre outros. Podem existir projetos de muita qualidade, mas se não se conseguir ter recursos humanos para os operacionalizar, de nada adianta. Não estou com isto a dizer que não seja preciso os clubes melhorarem os seus projetos e processos desportivos, organizarem-se melhor, terem preocupações diferentes com os processos de treino, jogo e de formação. Ainda me lembro quando no futebol se dizia que o principal problema era a falta de infraestruturas de qualidade e agora quase todos os clubes já têm campos sintéticos e edifícios de apoio com mínima qualidade e há muitos problemas da altura que ainda se mantêm. Contudo, o primeiro problema é a falta de pessoas. Por exemplo, cada vez é mais difícil encontrar quem esteja disponível para ser dirigente de um clube e sem dirigentes os clubes acabam. Já há alguns anos que ouço falar da necessidade de alterar o estatuto do dirigente desportivo e isso é urgente, especialmente para as regiões do interior do país, mas é algo que não depende das Associações ou da FPF, depende do poder central, do Governo.
Da parte da entidade que tutela o futebol nacional, a FPF, acho que o primeiro grande apoio para tentar diminuir as assimetrias é ceder à tentação de acabar com a representatividade geográfica nas competições distritais e para já tem-no feito. Depois, é necessário perceber que enquanto as Associações do litoral são autossustentáveis, as Associações do interior vivem no limiar da sustentabilidade financeira, pelo que tem que haver uma discriminação positiva ao nível de apoios para que em regiões de baixa densidade populacional as Associações possam efetivamente desenvolver o futebol e futsal distritais, apoiando os clubes de modo a aumentar o número de coletividades, equipas e jogadores (os números dizem-nos que apesar da perda de pessoas, continua a haver uma margem de crescimento para a prática do futebol e futsal muito interessante), a tornar as provas mais competitivas, a formar mais recursos humanos, entre muitas outras coisas.
 
Como encararias um aprofundamento da cooperação com a AF Bragança, quiçá na criação de campeonatos conjuntos nas duas modalidades, como uma estratégia interessante de desenvolvimento do futebol e futsal no interior norte do país?
A cooperação entre a AF Vila Real e a AF Bragança é fundamental para o desenvolvimento do futebol e do futsal na região transmontana. O primeiro passo foi a Taça Transmontana a nível sénior no futebol e no futsal masculino e feminino, na qual se pretende alargar o número de equipas a participar em seniores e alargar também esta taça à formação. Não obstante, esta cooperação é importante a muitos outros níveis que não só as provas, como por exemplo a formação de agentes desportivos (treinadores, árbitros, etc.) ou a organização de eventos de dimensão relevante. Mas, voltando à tua questão concreta sobre a possibilidade de organização de campeonatos conjuntos, entendo que poderá ser uma solução a avançar no futuro, contudo, por diversas questões logísticas e de organização que uma competição destas coloca aos nossos clubes, sou da opinião que antes disso ambas as Associações devem esgotar todas as possibilidades de recrutar mais clubes e jogadores para as suas provas internas. Ou seja, acho que neste momento se deve continuar a desenvolver a Taça Transmontana como competição paralela às competições distritais e, ao mesmo tempo, cada Associação ir aprofundando projetos e medidas para aumentar o número de equipas e atletas nas suas provas. Esgotadas as possibilidades de crescimento interno, sou totalmente a favor dos campeonatos inter-distritais. Para perceberem a minha opinião, vou dar um exemplo: esta época temos apenas cinco equipas de futsal feminino na AFVR (excluindo o GD Chaves que está no campeonato nacional), contudo, tenho conhecimento de muitas mulheres e raparigas que queriam jogar e não têm clube. Sei de pelo menos dois casos em que havia jogadoras suficientes para avançar com uma equipa e os clubes não quiseram. Daí eu dizer que, na minha opinião pessoal, há que primeiro explorar esta margem de crescimento, que no distrito de Vila Real os números me dizem que temos, antes de avançar para o resto. Agora, vejo como muito positiva toda a qualquer cooperação entre a AF Vila Real e a AF Bragança e sei que cada projeto avançará na medida em que for de comum acordo ser benéfico para ambas.
 
Tendo em conta os excelentes resultados que já obteve com as suas seleções femininas, e o aumento do envolvimento das mulheres na prática desportiva, que importância poderá ter o desporto feminino no desenvolvimento do futebol e futsal no distrito de Vila Real?
Considero de extrema importância que os nossos clubes percebam a relevância de promoverem a prática desportiva do futebol e do futsal também na vertente feminina. Cada vez há mais mulheres e raparigas a querer jogar futebol e futsal e em Vila Real não somos exceção. A cada ano que passa, o crescimento do número de praticantes femininos tem sido enorme, nomeadamente na formação. Contudo, estas são as meninas que não se importam de jogar em equipas mistas, pelo que é urgente dar oportunidades de prática a muitas outras meninas que também querem jogar, mas que se inibem de o fazer com rapazes. Assim, torna-se fundamental os clubes criarem equipas de futebol e/ou futsal feminino. De modo a impulsionar a criação de equipas femininas, criamos na AFVR o projeto “Elas Também Jogam”, que tem como objetivo criar já para a próxima época uma equipa de formação feminina em cada um dos 14 concelhos do distrito, para disputar um campeonato distrital de futebol de sete e futsal feminino, bem como alocar um conjunto de apoios diretos às equipas que participem no campeonato distrital de futsal sénior feminino. Tendo definido os clubes, os Municípios e os Agrupamentos de Escolas como parceiros fundamentais ao desenvolvimento desta ideia, tínhamos previstas para estes meses de março e abril reuniões em todos os concelhos. Infelizmente, fruto da pandemia, tivemos que cancelar essas reuniões, depois de já termos reunido nas câmaras municipais em Mondim de Basto e em Vila Real. Face ao atual contexto, estamos a estudar de que forma conseguiremos não perder um ano e manter o início deste projeto para a próxima época 2020-2021. Desejando que consigamos manter o calendário, quero deixar a mensagem aos nossos clubes de que, consigamos operacionalizar este projeto já em 2020-2021 ou não, é fundamental que no cumprimento da missão de promover a prática desportiva no seu concelho, possam começar a pensar na criação de equipas de futebol feminino. 
 
Que trabalho a AF Vila Real tem feito e pode continuar a fazer, no sentido de apostar na formação de treinadores, jovens jogadores e até dirigentes, no sentido de dotar o distrito de recursos humanos qualificados e aptos a contribuir para uma melhoria da qualidade do futebol e futsal no distrito?
A AF Vila Real é das associações do país que mais aposta na formação de treinadores. Somos das associações que mais cursos de treinadores realiza e que organizou mais horas de formação contínua para revalidação dos títulos de treinador do IPDJ e das licenças UEFA. Desde 2013 que temos, ininterruptamente, curso de treinadores de futebol UEFA C/Grau I (em alguns anos com duas turmas), o mesmo desde 2015/2016 para os cursos de futebol UEFA B/grau II e futsal UEFA C/grau I e também já realizámos dois cursos de futsal UEFA B/grau II, um em 2016/2017 e outro que se iniciou na presente época 2019/2020. Como podes constatar, são muitos cursos e muitos treinadores formados. A nossa esperança é que isso se reflita diretamente no trabalho diários dos clubes e, deste modo, ajudemos a melhorar os seus processos e a formação dos seus jogadores. E a verdade é que isso tem acontecido e o futsal é um exemplo claro. Quando chegamos à AFVR, tinham sido criadas no ano anterior competições para todos os escalões de formação abaixo dos juniores, que até aí não existiam. Assim, deu-se um “boom” de equipas de futsal, mas não havia treinadores habilitados em número suficiente para “alimentar” estas equipas. Os formandos dos nossos cursos de futsal começaram por ser, na sua grande maioria, os treinadores destas equipas, alguns deles inclusivamente já estão a fazer o grau II. Tendo como referência o trabalho das seleções distritais, constatamos que de ano para ano os jogadores chegam-nos muito mais competentes e isso deve-se ao trabalho que os clubes desenvolvem com ele e, acreditamos, que esta aposta na formação de treinadores tem o seu pequeno contributo.
Quanto aos dirigentes, em parceria com a Portugal Football School já realizamos cursos de dirigentes e de diretores de entidades formadoras, entre outros, sendo que a parceria é para continuar aumentando até o número de cursos.
 
Se pudesses elencar prioridades estratégicas no trabalho a desenvolver nos próximos tempos, o que destacarias e porquê?
Os próximos tempos estarão muito condicionados por toda esta situação relacionada com a pandemia. Assim, e reconhecendo previamente que após termos dados mais concretos de como poderemos perspetivar a próxima época, poderemos ter que fazer algumas alterações também nas nossas prioridades estratégicas, vou falar-te de algumas das questões sobre as quais tenho vindo a trabalhar, nomeadamente questões que estão diretamente relacionadas com o gabinete técnico, e que têm como objetivos diretos o desenvolvimento quantitativo e qualitativo do futebol e futsal.
Começo pelo processo de certificação de entidades formadoras. Acredito que este processo dá aos clubes um conjunto de ferramentas muito importantes para organizarem e qualificarem a sua formação de jogadores. Contudo, um clube que olhe para este processo apenas pelo lado burocrático e pela necessidade de obter a certificação para alcançar determinados objetivos, nomeadamente competir em provas nacionais, vai ter dificuldades quer em certificar-se, quer em utilizá-lo para qualificar o seu trabalho. Um clube que veja o processo como uma forma de valorizar o seu trabalho e melhorar o seu processo de formação, não tenho dúvidas que estará no caminho certo e encarará o futuro muito melhor preparado. A subcomissão de certificação da AFVR continuará a estar muito próxima dos clubes e a ajudá-los em tudo o que precisarem.
Outras duas prioridades são os projetos de desenvolvimento do futebol e futsal feminino, que já referi anteriormente, e o projeto que via levar o ensino do futebol e do futsal ao 1º ciclo, também numa lógica de ajudar os clubes ao nível da angariação de praticantes nesta faixa etária, aumentando assim o número de praticantes.
O aumento da competitividade/equilíbrio das nossas competições é outra prioridade, pelo que vamos continuar a analisar de que forma podemos alterar os formatos competitivos para concretizarmos esse objetivo, bem como de que forma conseguiremos aumentar o número de equipas e de praticantes, salvaguardando também a problemática da retenção de praticantes.
Queremos continuar a evoluir os processos das seleções distritais, inclusivamente criando mais seleções a que chamamos de “enquadramento/desenvolvimento”, de modo a poder preparar com mais anos de antecedência as participações nos torneios inter-associações. Com isto pretendemos, claramente, poder potenciar mais jogadores(as) para as diferentes seleções nacionais e continuar a evoluir ao nível dos resultados.
A formação de treinadores e de dirigentes continuará a ser uma aposta. O rigor e exigência dos nossos cursos são reconhecidos a nível nacional e acreditamos que a qualificação dos agentes desportivos é importante para o desenvolvimento que se pretende.
 
Enquanto diretor técnico regional, que palavras gostarias de deixar aos clubes do distrito nesta fase de incerteza quanto ao futuro e grande exigência coletiva?
Sem dúvida, Gonçalo, este é um momento de exigência coletiva. Ao longo destes cinco anos foram imensos os quilómetros que percorri, que me permitiram conhecer o distrito todo e a realidade de cada um dos nossos clubes. Sem dúvida, esta foi a “vitória” que mais me preencheu neste período em que tenho estado na AFVR e aquela que vou levar para a vida. Independentemente do que o futuro nos reservar, acredito que estaremos juntos para ultrapassar todas as dificuldades que possam advir do atual contexto, bem como outras inerentes aos processos desportivos, sempre com a amizade, honestidade e frontalidade que tem acontecido na maioria dos casos. Este momento é complexo para todos e, tal como disse no início, tenho imenso respeito pelos clubes, jogadores, treinadores e dirigentes, mas também estou solidário com a função ingrata (pelo motivo em questão, que ninguém desejava) de tomar decisões e que cabe à Direção da AFVR. Assim, o meu apelo é que numa lógica construtiva, os clubes tenham a preocupação de ser parte da solução e não parte do problema. Só com este espírito coletivo será possível ultrapassar todas as dificuldades que este momento nos coloca e que ainda nos vai colocar.
 
 
Entrevistador: Gonçalo Novais
Entrevistado: Carlos Soares

 

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Data de publicação: 2020-04-28

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