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Gonçalo Matos “Estou cansado de dizer que sem pessoas os clubes não se sustentam"
Sensacional, fantástica, histórica, memorável. Tantos adjetivos servem para descrever o que fez o Castro Daire na Série B do Campeonato de Portugal.
Num interior do país a braços com recursos permanentemente escassos, a nível financeiro e até demográfico, para permitir aos seus clubes competirem de forma equilibrada com os emblemas do litoral, histórias como a desta equipa lembram-nos de que, no interior do país, a qualidade também existe, aliada a uma enorme abnegação das comunidades locais na hora de enfrentar as adversidades.
Contudo, nem tudo é um «mar de rosas», e os grandes problemas estão ao virar da esquina. Depois de uma temporada em que o Castro Daire terminou o campeonato na quinta posição, e conseguiu a proeza de 21 jogos oficiais consecutivos sem perder (!), o entrevistado Gonçalo Matos, membro da comissão administrativa que gere os destinos do clube, apela aos castrenses que se mobilizem para dirigir os destinos do clube. E avisa que sem pessoas, os clubes não se sustentam. E as histórias podem não ter o final feliz que todos desejam.

COMPLEXO | Por motivos excecionais, termina antes de tempo uma época que poderia ter sido memorável para o Castro Daire. Que análise é possível fazer da prestação da equipa na sua estreia no Campeonato de Portugal?
GONÇALO MATOS | Prestação extremamente positiva onde a equipa e o clube, com a paciência necessária, souberam adaptar-se às exigências de um campeonato nacional. Não poderia ter sido. Foi uma época memorável, apesar do término precoce.
Esta era a estreia absoluta do Castro Daire no Campeonato de Portugal. Com que expectativas partia o clube e o próprio concelho para uma época que, pelo simples facto de marcar presença na competição, seria sempre histórica?
O clube partia com expectativas moderadas, dada a absoluta novidade competitiva, mas com o sério objetivo de alcançar a manutenção. O concelho, grande parte dele, partilhava da mesma ambição que o clube. Uma pequena parte só partilhava das primeiras cinco jornadas.
Quais as exigências que se colocam a um clube como o Castro Daire, na transição desde os campeonatos distritais às competições nacionais como o Campeonato de Portugal?
Exigências do ponto de vista mental, sobretudo. Fazer acreditar que quem chega, pode ficar, é dos trabalhos mais importantes e difíceis de conquistar.
Apesar do sucesso desportivo registado dentro de campo, os recursos financeiros e de infraestruturas que são necessárias à presença de um clube a este nível, tornam-se bastante elevados num concelho e numa região com capacidades limitadas de investimento a este nível. De que forma é que o Castro Daire pode conseguir aguentar-se neste patamar?
Aguentar-se-á se os castrenses de consciencializarem que o sucesso dá muito trabalho. E muito trabalho, precisa de muita gente para o levar a cabo. O declínio da Associação Desportiva de Castro Daire começará a partir do momento em que os castrenses pensarem que quem lá está, pode lá ficará eternamente.
De que maneira se procedeu à planificação e construção do plantel para esta época, e quais os critérios subjacentes à escolha dos jogadores para fazer parte do plantel?
Optámos por uma mescla de juventude e experiência. Procurámos atletas interessados em progredir na sua carreira e outros já com provas dadas nos campeonatos profissionais. Fomos pescar onde os grandes pescadores não viam peixe graúdo.
Ao nível da equipa técnica, optou-se por uma substituição de treinador, com Xando, que subiu com a equipa, a dar lugar a Vasco Almeida, um "filho da terra" que já tinha sido campeão pelo clube na 1ª Divisão Distrital da AF Viseu, em 2010/11. Quais os motivos que levaram a esta escolha?
A troca de treinador não foi uma opção. Foi uma necessidade pois o mister Xando, convidado a ficar, não aceitou. Vasco Almeida é um rapaz da terra. Um castrense de gema. Com provas dadas. Muito pragmático. Competentíssimo e altamente preparado para lidar com o que aí vinha. Ambicioso q.b., ao ponto de perceber que para ganhar houve necessidade de abdicar de algumas ideias iniciais.

Entretanto, e depois de uma pré-época promissora, a época oficial arranca, e os resultados estão longe de ser os melhores, com derrotas nas cinco primeiras jornadas e a eliminação na Taça de Portugal. Como se explica este começo tão difícil?
Explica-se com a dificuldade do próprio campeonato e com o facto de termos feito uma pré-época que, não sendo enganadora, nos fez esquecer daquela dificuldade. É que os que estavam a perder, foram os mesmos que ganharam, porque reconcentraram-se!
Uma subida de divisão traz sempre uma motivação acrescida, e um maior ânimo para encarar uma nova etapa e desafios diferentes. Em que medida estes maus resultados iniciais abalaram emocionalmente todo o clube, nesta fase?
Naturalmente que foi uma fase muito difícil. Angustiante. Sabíamos que os resultados da pré-época, sem qualquer derrota nos jogos de preparação, tinham razão de ser, e ansiávamos que a pré-época regressasse na época em curso. Lidámos com a contestação e aguentámo-la. Teve de ser.
Ao fim deste período negativo, surge a primeira vitória da época, e logo acompanhada de um título, a Supertaça da AF Viseu. Que significado teve para vocês esta conquista, e que importância este triunfo teve num grupo a precisar urgentemente de uma vitória?
Foi o clique. Uma verdadeira injeção de confiança.
E é então que começa, a 22 de setembro, um período extraordinário para o Castro Daire, que não mais voltou a perder durante a época. Como se explica uma série de resultados deste nível, em que pelo meio houve direito a uma sequência de oito vitórias consecutivas?
É quase inexplicável. Direi que os atletas e o corpo técnico devolveram em quíntuplo, os ataques inicias de que foram alvo.
Como se gere um clube que começa a ser notícia nos media nacionais, e que «brinda» os seus adeptos com uma série de jogos imparável, ainda para mais numa época em que disputa as provas nacionais?
Gere-se de uma maneira mais fácil. Quando de ganha e não se perde, tudo são rosas. há a visibilidade de que todos gostam. Há os sorrisos e as pancadinhas nas costas. É o futebol na sua vertente positiva.

Como é que os próprios adeptos do concelho lidaram com esta época sensacional do Castro Daire no Campeonato de Portugal?
Lidaram e lideraram da melhor maneira possível. Com um apoio massivo e constante. Foram, nesta parte, soberbos. Os melhores.
A nove jornadas do fim, e com seis pontos de atraso para o segundo classificado, o que se poderia esperar ainda desta equipa, no que faltava para o fim?
O que sei é que não se estava a mostrar nada fácil ganhar à Associação Desportiva de Castro Daire e que jamais diríamos para abrandarem. No que é que ia dar, não sei.
A seguir a esta crise sanitária, vai seguir-se uma crise económica que colocará grandes dificuldades ao planeamento da próxima época desportiva, que serão ainda maiores em regiões de menos capacidade económica, como o caso do interior do país. Como é que um clube como o Castro Daire vai preparar a próxima temporada, tendo em conta os condicionalismos expectáveis?
É preocupante. Poderá estar em risco uma participação digna e que promova o concelho de Castro Daire. Além disso, no final de maio o clube vai a eleições e teremos de esperar para ver o que o ato determinará. O futuro requer pinças no seu tratamento
Que impacto esperam que um período próximo de crise terá na atividade desportiva do clube?
Inexoravelmente o maior impacto será ao nível do recrutamento das fontes de receita, as quais serão menores.
Que visão estratégica poderá ter um clube como o Castro Daire, no sentido de tentar manter a trajetória de sucesso, que o levou desde os campeonatos distritais ao nível a que está agora?
Estou cansado de dizer que sem pessoas os clubes não se sustentam. E o nosso clube precisa de mais pessoas na sua máquina organizativa. Temos vindo a ser geridos por comissões administrativas de ano para ano com menos pessoas na sua estrutura. Não pode ser. A estratégia passará sempre por cumprir escrupulosamente com todas as obrigações assumidas, para merecermos o crédito de quem em nós confia, e por percebermos sempre que somos um clube com poucas posses, o que impede que se cometam loucuras.
O que poderão esperar os adeptos do clube, daquilo que será o trabalho que o Castro Daire tenciona desenvolver no futebol nacional?
Não lhe consigo responder pois há variáveis de (in)sucesso que, neste momento, desconhecemos.
Entrevistador: Gonçalo Novais
Entrevistado: Gonçalo Matos
Créditos das fotos: AD Castro Daire
Data de publicação: 2020-05-06
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