Filipe Teixeira "jogadores muito determinados, mas claramente com a confiança abalada."
Filipe Teixeira é um jovem treinador, mas que conta já com uma larga experiência nas competições distritais, com passagem por Barrosas, Baião, Caíde Rei e mais recentemente em Lousada, onde tinha sido contratado para reverter os resultados, até que as competições foram suspensas.
O técnico de 36 anos, natural de Felgueiras, nesta entrevista abordou temas relacionados com a atualidade das competições, sobre a ADL Lousada, a sua ideia de jogo e o futuro como técnico.
11 PERGUNTAS RÁPIDAS (uma ou duas palavras)
Treinador de referência? Não tenho. Admiro Bruno Lage pela serenidade, sinceridade e correção com que comunica publicamente.
Cidade preferida? Lisboa
Como te defines? Dedicado
A tua paixão? Futebol
Música de uma vida? Não tenho (sou ouvido para tudo)
A maior troféu? Os meus filhos
Personalidade de referência? Não tenho
O que te faz rir? As vitórias
O que te desconcentra? Barulho
O amor para ti é? Mostrar gentileza
Complexo é? Informação de referência

COMPLEXO: A paragem das competições trouxe e trará novos desafios aos técnicos. Quais serão para ti os maiores desafios e aprendizagens para o futuro?
Filipe Teixeira: No contexto atual há muitas dúvidas quanto aquilo que serão os dias futuros, por isso é sempre arriscado fazer projeções ou planos, porque a vida pessoal e profissional poderá estar condicionada. Só daqui a umas semanas é que saberemos quais as medidas e restrições estarão em vigor no relacionamento social e só aí poderemos definir como abordar o planeamento da época. Penso que o grande desafio estará mesmo em conseguir formas de preparar, convenientemente, a equipa depois de uma paragem tão longa, respeitando as restrições que ainda possam estar em vigor.
Muitos treinadores não são a favor do atual modelo competitivo da Divisão Elite AF Porto. Qual é o modelo que consideras mais apropriado?
Filipe Teixeira: Penso que se é uma Divisão de Elite deveria existir apenas uma série. Dessa forma estariam os 18 clubes mais competitivos da AF Porto.
Na minha opinião também o início das provas não é ajustado a uma divisão amadora. O início dos treinos em finais de julho dificulta o trabalho dos treinadores que se vêm privados dos jogadores que aproveitam o mês de agosto para gozar os merecidos dias de férias em família depois de um ano de trabalho, em alguns casos fechados em fábricas. Começar os quadros competitivos na primeira semana de setembro para acabar no mês de abril penso que não faz grande sentido. Se esta opção pode perturbar os clubes com estruturas maiores adaptados aos quadros competitivos nacionais e com jogadores que vivem só para o futebol, então mais sentido faz uma Elite a 18 clubes onde possam começar mais cedo. As restantes divisões começavam em outubro e acabavam um pouco mais tarde onde podem atrair mais gente aos estádios por via da melhoria do estado do tempo nos meses da primavera.
Assumiste o comando técnico da ADL - Associação Desportiva de Lousada, numa fase complicada a nível de resultados, quais foram as maiores dificuldades encontradas?
Cheguei a Lousada sendo o terceiro treinador e para um plantel apenas com uma vitória. Encontramos um grupo de jogadores muito determinados e leais ao compromisso com o clube, mas claramente com a confiança abalada.
Após uma volta de campeonato a somar apenas 8 pontos sabíamos que era necessário tornar a equipa mais equilibrada e competitiva, mas não foi possível da forma que desejávamos. Chegaram apenas 2 jogadores, que vieram dar mais opções, mas não era suficiente.
Depois agarramo-nos ao que tínhamos e sobretudo à vontade e crença inesgotável dos jogadores, organizamos a equipa segundo as nossas ideias e do terceiro jogo para a frente lamentamo-nos, essencialmente, da falta de sorte. Foram 7 jogos entre empates e derrotas pela margem mínima.
O plantel que encontraste era limitado e desequilibrado, consideras que a planificação da época e a construção do plantel foram os motivos principais da má época do clube?
Não estava no clube no momento desse planeamento e não sei como nem em que momentos se construiu a equipa para uma divisão tão competitiva, mas quando 3 treinadores apenas conseguem uma vitória é sinal que há problemas no plantel. A determinação e capacidade de sacrifício dos jogadores era incrível, mas faltavam opções diferentes em algumas posições. Na época anterior, o Lousada tinha feito uma época extraordinária e onde figuravam muitos destes jogadores, por isso a qualidade deles estava justificada. No entanto, saíram jogadores influentes, cujos substitutos não conseguiram ser tão felizes.
Aquando da tua entrada na ADL – Lousada, esta estava num processo diretivo turbulento. Consequentemente, o presidente que te contratou acabou por sair. Como foi lidar com todas essas situações e de que forma isso prejudicou o trabalho da equipa?
As mudanças diretivas nunca trazem estabilidade, mas confesso que as pessoas que continuaram no clube conseguiram garantir o necessário para que nada perturbasse a equipa.
A liderança do presidente Joca estava a dar à equipa sénior uma organização excelente e que não é fácil encontrar em qualquer clube. Tudo estava em sintonia e apesar da situação aflitiva na tabela havia uma confiança muito grande de que seria possível inverter.
A saída de alguns elementos provocou uma tristeza muito grande no grupo e preocupou-me muito, porque estávamos na véspera de um jogo contra uma das equipas mais fortes. A resposta dos jogadores foi de enorme compromisso e conseguimos para muita gente a melhor exibição da época. Nesse jogo, percebi também que poderíamos estar tranquilos, pois as pessoas que iam liderar o clube não deixaram que nada faltasse, foi quase como apenas se mudassem os rostos.
Como definirias e avaliarias a tua passagem no período de tempo que estiveste à frente da equipa da ADL-Lousada até à suspensão das competições?
Só quem esteve lá dentro ou quem viu todos os jogos vai entender a minha resposta. Eu só tenho de avaliar como muito positivo o trabalho da equipa técnica. Não conseguimos os pontos que queríamos, mas com o plantel que tínhamos conseguimos manter sempre o foco dos jogadores e conseguimos potenciar as suas capacidades ao ponto de conseguirmos grandes exibições e equilíbrio, face a adversários do topo da tabela. Foi audível muitas as declarações de treinadores adversários a elogiar o desempenho dos jogadores do Lousada, mesmo estando a viver uma época tão desgastante emocionalmente. Olho para trás e vejo que mesmo após 25 jogos apenas vencendo 1, a equipa jogava com uma enorme vontade e entrega em honrar o símbolo. Convém, também, relembrar que no momento da paragem já tínhamos jogado contra 9 equipas das 10 primeiras, sendo os restantes jogos na maioria contra clubes que lutavam pelos nossos objetivos.
Falando um pouco do Filipe Teixeira, enquanto treinador, dentro do teu modelo de jogo, quais são as principais características que gostas de ver nas tuas equipas?
Procuro em primeiro lugar construir equipas que sejam determinadas na honra dos objetivos e imagem do clube e que proporcionem esteticamente um jogo que seja agradável aos adeptos. Depois, tudo depende dos objetivos e dos jogadores que temos. De uma forma geral, gosto que a equipa tenha capacidade para ter a bola muito tempo e o possa fazer em todo o campo. Procuro que a equipa seja objetiva nas suas ações de procura da baliza adversária, mas que perceba que a bola custa a ganhar e, portanto, não a podemos perder facilmente. Nos momentos defensivos a concentração é a palavra chave. Sou muito exigente nos aspetos defensivos. A concentração para tomadas de decisão e posicionamentos corretos é mesmo a palava de ordem.
Qual foi a equipa que treinaste que mais próxima esteve da tua ideia de jogo?
Todas as equipas me deram momentos altos dentro daquilo que definimos como as caraterísticas que queríamos implementar, face aos objetivos e aos jogadores disponíveis, mas Barrosas deu-me muito sem dúvida. Conseguimos ser uma das melhores defesas do campeonato e depois ofensivamente a equipa interpretava na perfeição o que eu idealizava. Foi fantástico, porque conseguimos aliar as excelentes exibições à conquista de títulos e marcos históricos (vitória na Taça e Supertaça AF Porto e regresso 30 anos depois à Taça de Portugal, com presença histórica na 2ª eliminatória).

És da opinião que o futebol português deveria seguir um processo padronizado comum nos escalões de formação, de forma potenciar a uniformização de uma identidade própria?
Isso poderia dar grandes especialistas nas suas posições e com características bem próprias, mas seria quase como chegar ao 1º ano da escola e só aprender português até ao 12º. Teríamos um conhecedor profundo de língua portuguesa, mas que não saberia sequer contar ou somar!
Eu defendo que deve haver uma linha orientadora a nível de clube. Uma linha que desenvolva no atleta aspetos técnicos, táticos, físicos, mentais, sociais e culturais ao nível da região onde se insere o clube. Essa linha orientadora nunca poderá limitar a riqueza que a diversidade poderá dar no jovem. As pessoas que organizam um clube devem definir o que querem fazer daquele jovenzinho que chega em tenra idade e o que querem ver nele quando terminar o processo formativo. Mas se for tudo estritamente limitado a qualquer identidade, poderá ser castrador de talentos que fiquem ofuscados.
Na tua opinião, quais são as maiores dificuldades dos atletas saídos da formação em afirmarem-se nas equipas seniores?
Por vezes, aquilo que foi a aprendizagem ao nível de formação não desenvolveu neles qualidade suficiente para chegarem ao patamar acima.
A cultura “resultadista” que vemos em muitos departamentos de formação e que esquece o desenvolvimento de valências essenciais nos seus atletas procurando apenas olhar para as classificações.
Outras vezes, é a ausência da cultura do mérito. Por vezes, vemos atletas talentosos com o caminho estendido na formação, com ausência de situações que os obriguem à superação ou que os habitue a lidar com a frustração. Chegando ao plantel sénior não estão preparados para não serem os melhores ou para esperarem oportunidades.
Outro aspeto, tem a ver com o treinador da equipa sénior, que caso tenha menos coragem para apostar em jogadores menos experientes irá dificultar também este processo.
Relativamente ao futuro, acreditas que as competições irão voltar dentro dos prazos normais? Quais serão as maiores condicionantes?
Eu acredito que sim. Acredito que, brevemente, estaremos numa vida próxima do normal. No entanto, conforme dizia acima, é uma altura em que não podemos fazer grandes previsões. O início será sempre estranho, porque num desporto de contacto haverá sempre quem se lembre do que se passou e pode haver receios. Talvez alguns cuidados extra, algumas medidas ainda possam estar de pé e nos obriguem a ter de lidar com as coisas de outra forma, mas teremos de aguardar.
Na próxima época já está definido onde vais treinar? Tens convites? Lousada é uma hipótese?
Neste momento, todas as hipóteses estão em aberto. Como ainda me mantenho ligado ao Lousada darei sempre prioridade a ouvir os seus responsáveis. Na última reunião ficou decidido que se aguardaria até meados de maio para serem tomadas decisões.
O clube tem em primeiro lugar que se organizar directivamente, o que obrigará a eleições. Só depois desse momento o novo presidente poderá dizer se deseja a minha continuidade. Se assim for, irei analisar a ambição do projeto apresentado e depois mediante convites que existam decidirei o que será melhor.
Entrevistador: Luís Leal (Complexo Desportivo)
Entrevistado: Filipe Teixeira
Data de publicação: 2020-05-08
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