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ENTREVISTA "distância que mais adrenalina me dava correr era os 1500 metros"

Para primeira entrevista do Complexo Desportivo convidamos Sara Catarina Ribeiro, uma das maiores figuras do desporto nacional, em particular do atletismo da atualidade. Uma referência da modalidade que tem como sonho profissional participar nos Jogos Olímpicos, um sonho que poderá ser concretizado este ano, depois de conseguir marca de qualificação para Tóquio 2020, com o tempo oficial de 2h26m39s, na Maratona de Valência, em dezembro de 2019. 
Sara Catarina Ribeiro é natural de Lustosa-Lousada, tem diversos títulos, com destaque para os títulos de campeã nacional de corta-mato, em 2018, e de estrada, em 2019, e ainda o estatuto de vice-campeã de corta-mato, em 2019, além das muitas provas ganhas ao longo da carreira e das participações em campeonatos e provas internacionais. 
Numa conversa descontraída e ativa, Sara Catarina Ribeiro mostrou-se muito disponível. A entrevista iniciou-se ao som da sua música favorita, o tema Paradise, dos Coldplay.
 
Nome completo: Sara Catarina Costa Pontes Ribeiro
Modalidade: Atletismo
Idade: 29 anos
Naturalidade: Lousada
Clube: Sporting CP
 
 
"cativar os miúdos para a prática do atletismo é muito difícil"
 
Complexo Desportivo - Quando e como iniciaste a prática do atletismo?
Sara Catarina Ribeiro - Comecei a praticar atletismo em março de 2002, a convite do meu atual treinador o Sr. Joaquim Santos, ele conhecia o meu pai, foi ao negócio do meu pai, eu estava a brincar e como era muito magrinha ele disse que eu deveria ter jeito para o atletismo. Perguntou ao meu pai se me poderia levar a experimentar ao FC Vizela, onde fiz toda a minha formação de 2002 a 2010 e como o clube dava boas condições, fui apenas para experimentar, por uma brincadeira e o “bichinho” foi crescendo e fui ficando e cheguei onde cheguei até aos dias de hoje.
 
Quais as tuas referências no atletismo?
Como atleta de meio fundo e fundo, sempre tive como referência a Fernanda Ribeiro, por causa de um corta mato escolar que participei na pista da Costilha (Lousada). A Fernanda Ribeiro era a atleta convidada e deu-me um autografo, fiquei super contente, fiquei mais desperta para o atletismo e quis saber mais sobre o atletismo e sobre a Fernanda Ribeira. O Carlos Lopes e a Rosa Mota também são uma referência e os alicerces do fundo português.
 
Já alguma vez pediste conselhos a essas tuas referências?
Não foi bem conselhos, mas já estive à conversa, principalmente com a Fernanda Ribeiro e com o Carlos Lopes. O Carlos Lopes é meu diretor no Sporting CP e a Fernanda Ribeiro quando fazia parte da Federação foi minha Team Líder, numa deslocação a uma Taça da Europa de 10000 metros. Tive a oportunidade de privar um pouco com eles e fazer algumas questões, de como era no tempo deles e o que faziam de diferente. Eles partilharam informações comigo e com os outros atletas.  
 
És natural de Lousada, como é viver e crescer em Lousada?
Para mim é bom (risos).  Eu sou natural da freguesia de Lustosa, um bocadinho mais deslocada do centro da vila. O atletismo não passa por Lousada, mas sim pelo concelho vizinho (Vizela), mas desde 2014 Lousada tem-me proporcionado as melhores condições de treino, que poderia pedir para praticar a modalidade com qualidade.
 
Sentes ou alguma vez sentiste que por ser do Norte e desta região alguma vez te prejudicou ou se fosses de Lisboa terias outras oportunidades?
Não. Por acaso, acho que é uma vantagem. Porque se formos a ver, o atletismo de fundo e meio fundo está mais centralizado nesta região do Norte, não tanto na capital, nem tanto no Porto. Existem pessoas que não devem ter a noção, mas, neste momento, as melhores atletas nacionais somos todas da periferia, desde a Salomé Rocha que é de Vizela, Sara Moreira Roriz (Santo Tirso), Dulce Félix, que é de Moreira de Cónegos e a Jéssica Augusto que está a viver na Póvoa.
Eu falo por mim, acho que é uma vantagem para mim viver nesta zona, apesar de ser uma zona que não tem tantas planícies para eu fazer treinos mais longos, tendo que me deslocar, por vezes, e acima de tudo aqui as estradas não têm grandes bermas, mesmo assim continuo a treinar por aqui, na continua, a treinar na estrada. Ainda recentemente, a minha preparação para a Maratona de Valência foi feita em toda esta zona, Lousada e Paços de Ferreira e até acabou por ser uma vantagem porque eu não treinei só plano, fiz bastante sobe e desce o que me fortaleceu mais para conseguir uma melhor performance. O facto de estar aqui um bocadinho mais fechada do mundo e longe de tudo protege-me, porque eu não sou uma típica atleta que está sempre a ver a comunicação social ou o que sai nos jornais. Eu não sou esse tipo de pessoa. Estou reservada no meu canto, faço o meu trabalho, o meu treino, não procuro muito esse tipo de informação, fico mais focada na minha, como costumo dizer, quando chegam algumas informações a mim, já chegam quando todo o mundo sabe, mas eu acho que isso até acaba por me proteger e poder fazer o meu trabalho muito mais tranquila.
 
Quando é que te tornaste profissional?
Eu passei a fazer só atletismo por volta de 2011. Em 2010 saí do FC Vizela para o SC Braga, onde estive duas épocas 2010/2011 e 2011/2012. Na altura, trabalhava num ginásio e tive uma lesão (rotura no menisco), tendo que ser submetida a uma cirurgia, logo depois de ir para o SC Braga e  com alguns problemas com o patrão, obrigaram-me a deixar o trabalho e a partir daí foi quase um impulsionar para me dedicar só à modalidade e a partir de 2011 fiquei só focada no atletismo. Claro que a ajuda da minha família e do meu pai, foram muito importantes, que sempre me apoiaram e foram um alicerce importante na minha prática desportiva.
 
Como foi a reação da tua família ao dizeres que querias ser atleta profissional?
Não foi boa por parte de todos, acima de tudo pela minha irmã, porque eu cheguei a entrar na faculdade, entrei em fisioterapia 2008, mas estava a ser difícil conciliar as duas coisas. Na altura que entrei e fisioterapia, na Escola Superior de Tecnologia da Saúde do Porto, alteraram o sistema de ensino e não estava a ser fácil conciliar, comecei a entrar em depressão e esgotamento, então optei por deixar a faculdade para me dedicar só ao atletismo. Na altura, o meu pai apoiou-me sempre, tanto que eu no início quando deixei a faculdade fui ajudar o meu pai na oficina dele. E só depois arranjei outro trabalho, fui trabalhar para um ginásio, mas o meu pai, a minha mãe e o meu namorado, que é hoje meu companheiro, sempre me apoiaram, apesar da minha irmã não ser muito a favor de eu ter abandonado os estudos, porque ela queria muito que eu me formasse. Na altura foi uma opção, não me arrependo e acima de tudo fiz a melhor escolha, porque a qualquer altura posso voltar a estudar e o atletismo não, tem uma idade, tem um timing, ou eu aproveitava ou não aproveitava e então com o apoio dos meus pais, dos treinadores e do meu namorado dediquei-me a 100% à modalidade.
 
Os teus estudos como estão neste momento?
Em standbye. (risos)
O atletismo profissional mudou a tua vida?
Sim. Fazer exercício qualquer um pode fazer, agora fazer alta competição é difícil, não é que mude muito a minha vida, porque eu praticamente só vivi nisto, eu não conheço outra realidade, mas acima de tudo é uma coisa que eu gosto de fazer, que faço com amor e com paixão e por isso não me arrependo. Lógico que o atletismo me priva de imensas coisas, desde poder fazer férias quando quero, por exemplo, o meu namorado está de férias e eu não consigo conciliar as férias com ele, desde estar com a família; querer sair à noite com os meus amigos, só faço isso quando estou de férias, ai é que posso divertir-me um pouco mais; constituir família; ter filhos é mais complicado, temos de deixar isso para mais tarde, apesar de haver sempre aquela pressão das pessoas. Mas é porque o meu trabalho assim o exige e se eu quero estar ao mais alto nível não posso ter uma paragem de 9 meses. Passo 355 dias só focada, a pensar na melhor performance.
 
Já correste diferentes distâncias. Qual a que mais gostas de correr?
Agora estou mais virada para a maratona, mas a distância que mais adrenalina me dava correr era os 1500 metros. Corri quando era mais nova e por causa do clube que exigia que eu fizesse um bocadinho de tudo, só passei para as maratonas há 4 anos para cá. Só não faço 1500 metros hoje, porque as minhas características não são tanto para velocidade, mas sim para mais resistência e longas distâncias. Apesar de nunca ter treinado muito para os 1500 metros, até tenho uma marca interessante de 4,20 minutos.
 
Porquê de escolheres a Maratona, uma vez que fizeste bons resultados noutras distâncias?
Foi uma consequência. Eu em 2016 tentei mínimos para ir aos Jogos Olímpicos aos 10000 metros, só que na altura estava no SL Benfica e fui em fevereiro a uma Taça da Europa em Corta Mato e lesionei-me, fiz uma microrrotura no soliar, o que me deixou de fora do treino, praticamente 2 meses. A consequência foi que eu para além de perder performance, engordei e quando voltei, foi quase andar a correr contra o tempo. Em abril voltei a começar a correr, já sem dor, só que o facto de ter 2 ou 3 kg a mais era bastante prejudicial, então tive de fazer um treino extra para poder perder esses quilos a mais. Andei quase 1 mês e meio a fazer o meu treino normal com complemento de 1 hora e meia de bicicleta por dia, para poder perder a massa gorda que tinha a mais. Na altura, fiz uma primeira tentativa aos 10000, consegui fazer mínimos para o campeonato da Europa de Amesterdão e fiquei a 16 segundos dos mínimos Olímpicos, então ainda tinha o objetivo, ou a esperança que ia conseguir fazer mínimos olímpicos, porque se fosse ao campeonato da Europa ia conseguir fazer. Só que, entretanto, outra atleta disse que queria ir e como tinha melhor marca, eu fiquei de fora.
Fiquei triste, porque era a última tentativa para tentar ir ao Jogos Olímpicos. Fui depois selecionada para ir ao Campeonato da Europa, na meia maratona, só que eu não quis ir, porque ainda tinha a esperança de conseguir fazer mínimos. Tentei ainda fazer mínimos numa prova extra nos campeonatos nacionais de juniores, mas acabei por não conseguir é desisti da prova. Nessa semana devido ao treino intenso que tinha feito tive uma dor muito forte na bacia, tinha um edema ósseo, tive que voltar a parar por um tempo e voltar a recuperar.
Surgiu, depois, o convite por parte da Run Porto, na pessoa do Jorge Teixeira, para fazer a estreia na maratona no Porto. A partir dai foquei-me na Maratona com objetivo de cumprir o sonho de ir aos jogos Olímpicos de Tóquio e foi assim que surgiu a Maratona na minha vida.
 
Tóquio 2020 é um sonho realizado?
Ainda não. Apesar de ter feito a pior parte que são os mínimos, a marca está feita, mas felizmente ou infelizmente, não sei bem, Portugal tem bastantes atletas de grande valia. Neste momento, só eu e a Salomé Rocha é que temos mínimos para os Jogos Olímpicos, mas atletas como Jéssica Augusto, Sara Moreira e Dulce Félix ainda vão tentar mínimos agora na primavera. Eu vou ter de esperar até maio para ver se elas não fazem melhor do que eu, para poder estar nos Jogos Olímpicos de Tóquio.
 
Achas um pouco injusto?
Não é injusto, é assim (risos). Porque as regras do jogo são essas. Nós já sabemos à partida que temos o período de obtenção de marcas era de 1 janeiro 2019 até 7 ou 8 de maio. Eu optei por fazer logo em dezembro a Maratona, porque era uma altura que eu tinha menos obrigações do clube e estava mais tranquila e poderia preparar a prova à vontade. Tinha a primeira tentativa e se caso as coisas não corressem bem, poderia voltar a tentar agora na primavera, mas graças a Deus correu tudo bem. Já fiz a marca, à partida não é uma marca fácil de fazer, a Maratona é uma distância bastante exigente e bastante complexa, agora vou ter de aguardar até maio para saber se posso ou não estar nos Jogos Olímpicos.
Mas sem dúvida, a primeira parte e a parte mais difícil já está feita e já não depende de mim, estou super tranquila em relação a isso e vou continuar no meu trabalho até saber se vou ou não.  
 
Qual foi a sensação ao conseguires a marca olímpica?
Foi uma sensação espetacular. Primeiro, porque a preparação correu bem, tive sempre pessoas fantásticas que me ajudaram na preparação para a Maratona de Valência, eu já sabia que ia sozinha, preparei-me psicologicamente para correr a Maratona toda sozinha. Na altura, até um jornalista português, no hotel, no dia anterior, fez-me uma pergunta: “Qual era a minha perspetiva? À qual respondi, que a Maratona é como o melão, só sei quando abrir, mas espero que seja o Dia D e que eu seja finalmente feliz a fazer o que eu gosto, que é correr.” E, por acaso, foi das Maratonas que mais prazer me deu de correr. Senti sempre boas energias, também havia muita gente na rua. A Maratona de Valência é uma prova que tem imensos espetadores, é uma coisa fora do normal. Então, quando me vi a correr, tive a surpresa de vários amigos me irem apoiar, nesse dia, também já andava atrás desta marca há algum tempo. Eu sabia que valia este tempo, mas nunca me tinha saído, esta foi a minha 7ª Maratona, que iniciei, apesar de ter só concluído quatro.   
No final, lembro-me de ver o meu treinador e lhe disse “fogo consegui” e agradeci-lhe acima de tudo, porque a certa altura ele se calhar acreditava mais do que eu, sempre insistiu comigo e sempre me deu muita força, foi acima de tudo das pessoas mais importantes no percurso da Maratona e no final disse-me “vês como tu consegues?”. Fiquei super feliz, nem pensei que eram mínimos olímpicos, fiquei mesmo muito contente, porque finalmente fiz uma marca para aquilo que eu tinha treinado, só depois é que me caiu a “ficha” que tinha feito mínimos para os Jogos Olímpicos.
 
 
O teu treinador Rui Pereira é das pessoas mais importantes para ti?
O Rui Ferreira e o seu pai Joaquim Santos são das pessoas mais importante para mim. Eles são o meu apoio, principalmente o Rui Ferreira, uma vez que o Sr. Joaquim Santos agora está mais no apoio, mas o Rui Ferreira trata de tudo, eu só tenho que me preocupar em correr.
 
Quais achas que vão ser as tuas maiores dificuldades em Tóquio?
Acima de tudo a temperatura e a humidade. Apesar de alterarem a Maratona de Tóquio para Sapporo a diferença não irá ser muita, apenas dois graus. A dificuldade maior na prova será mesmo a situação climatérica.
 
Como vão ser estes meses de preparação?
Já estamos a tratar da preparação para a prova, independentemente se vamos ou não. Já está programado fazer treino em câmara de climatização para preparar-me para essa dificuldade.
 
Assusta-te a situação do Coronavírus?
Eu tenho uma opinião pessoal sobre isso e não quero revelar. Espero que até lá a situação seja resolvida. Não deixa de ser assustador, com tantos atletas de diferentes países e caso as coisas não corram bem é uma calamidade.
 
O Comité Olímpico já te deu alguma informação acerca da situação?
Sim, há algumas situações em cima da mesa e na pior das hipóteses podem mesmo cancelar os Jogos Olímpicos.
 
Quais os principais cuidados que tens com a tua saúde e alimentação?
Tenho alguns cuidados com a alimentação, uma vez que geneticamente tenho tendência a engordar, mas não sou nenhuma radicalista, gosto bastante de comer, sou um “bom garfo” (Risos), tenho de ter bastantes cuidados, mas cuidados normais como qualquer pessoa. Não comer determinadas coisas excessivamente, tenho de ter cuidado com o meu corpo, porque ele é o meu meio de “produção”.
Tenho de ter cuidado com a minha saúde e para isso sou bastante acompanhada, por médico, fisiologista, uma equipa técnica completa à minha volta, para me ajudar em tudo.
 
Qual o teu prato favorito?
Ui tenho tantos (risos). Nada como um bom assadinho, ao domingo, da mãe. Gosta de comida tradicional portuguesa. Quando passo muito tempo fora até da sopa da minha mãe tenho saudades (Risos). Não sou do tipo de pessoa que se adapta a outro tipo de comida com facilidade.
 
De que forma são ocupados os teus tempos livres?
Gosto muito de ler, descobri há relativamente pouco tempo, principalmente como uma fuga para me acalmar e tirar um bocadinho a pressão de mim, tenho refugiado os meus tempos livres e até mesmo antes das provas para me concentrar e acalmar. Gosto de ler livros sobre a 2ª guerra mundial, porque me leva para outros horizontes.
Agora, mais recentemente, tenho uma bebé na família, minha afilhada, gosto de passar tempo com ela. Gosto de estar com a minha família, passear com o namorado, aproveitar para matar saudades dos momentos que não passo com eles.  
 
Achas que a tua família é fundamental na tua carreira?
Sim, sem dúvida. A minha família, o meu namorado sempre foram um apoio crucial. Poderá estar o mundo a cair, mas se tiveres a tua família ali por trás, as coisas são muito mais fáceis. Não é superstição, mas eu antes de uma competição gosto sempre de falar com os meus pais, para eles me darem aquela força. Gosto que a minha família esteja sempre perto de mim.  
 
Tens mais algum ritual antes de uma prova?  
Não tenho nenhuma superstição. Gosto de me benzer. Não tenho nenhum par de meias ou sapatilhas que tenha de estar sempre ali, aliás eu sou um bocadinho distraída e facilmente me esqueço do que calcei ou vesti.  
 
Qual o pior momento da tua carreira? O que te mais marcou pela negativa?
Foi quando eu passei a ser atleta a tempo inteiro. Porque trabalhava num ginásio e as coisas não correram muito bem, lesionei-me, fui operada, depois fui despedida, com processo horrível que esteve para ir para tribunal e isso desgastou-me bastante. Na altura fiquei mesmo muito mal, o meu treinador apoiou-me muito e disse-me uma coisa, que só à posteriori foi super importante, “que há males que vêm por bem”.
Entretanto, foquei-me no treino e no dia 15 julho fui medalhada no Campeonato da Europa e no final ele abraçou-se a mim disse: “Vês? Valeu ou não valeu a pena o que te aconteceu?”.
Principalmente o que marca mais um atleta são as lesões, que não permitem que consigamos ter a melhor performance.
 
Quais os motivos da saída do Sporting, passares por individual e depois voltares ao Sporting?
Não foi bem assim, Sporting-individual-Sporting. Eu estava no Vizela, fui para o Braga, primeiro ano de sénior, entretanto saí do Braga, porque o Braga acabou com a equipa feminina, porque não tinha condições financeiras para continuar. Fui para Sporting, onde estive dois anos (2012-2014), o Sporting distraiu-se e não renovou contrato comigo. Entretanto, surge a possibilidade e oportunidade e o Benfica aparece com uma melhor proposta e eu fui para o Benfica. Estive lá 2 anos (2014-2016), depois as coisas não correram bem. Não fui aos Jogos Olímpicos, tive uma lesão. A diretora não percebeu que eu estava mesmo mal, houve uma troca de palavras menos boas e eu fiquei de tal maneira desiludida, que disse que não queria lá ficar mais, independentemente se tivesse ou não clube. Acabei por ficar um ano individual, queria focar-me em mim, queria trabalhar umas coisas diferentes. Em 2017, surge uma proposta irrecusável para eu ir para o Sporting, não podia rejeitar, a proposta era bastante boa e o projeto era aliciante, as condições financeiras eram espetaculares.
Estou no Sporting e vou estar pelo menos até agosto de 2020, altura em que termina o meu contrato.
 
Achas que um atleta em Portugal é bem remunerado e apoiado em comparação com alguns atletas mundiais?
Não. Não sei se é em todos os países, mas em Portugal o atletismo é considerado modalidade amadora. Só por aí já estamos a ser prejudicados. Por exemplo, em Portugal os atletas do atletismo, são prejudicados porque estamos a recibos verdes e acabamos por pagar imensos impostos. No atletismo não ganhamos muito como um jogador de futebol, por exemplo, porque é considerado profissional e nós não, eu costumo dizer, “eu faço do atletismo profissão , mas eu não sou profissional, porque o atletismo é amador”.
Eu vivo do atletismo, porque tenho um clube como o Sporting que me permite que eu o seja, também sou competitiva e consigo tirar partido disso.
Mas é importante teres a estabilidade financeira, porque se te queres focar em grandes campeonatos e queres ser competitivo tens de ter uma base, tens de ter um suporte. Uma das coisas que está mal em Portugal de não termos as mesmas condições de outros países, por exemplo: atletas estrangeiros, tem mais estágios, levam um staff completo e nós aqui em Portugal não temos essa facilidade.   
 
Como vês a política em Portugal em geral e concretamente na vertente desportiva?  
Nós somos um bocadinho incultos em relação ao desporto. Acho que a política é como maioritariamente os portugueses que só vê futebol. É tudo muito centralizado no desporto “Rei”, mas chega-se à altura dos Jogos Olímpicos, acorda toda a gente e lembram-se que existe uma série de modalidades, que há probabilidade de se ganhar isto ou aquilo, ou melhor começam a exigir que haja resultados. Eu dou o exemplo: eu fiz mínimos no dia 1 de dezembro para os jogos olímpicos e um jornalista, pergunta-me: “O teu objetivo são as medalhas nos Jogos Olímpicos?” Eu fiquei … eu acabei de fazer marca de qualificação, mas uns Jogos Olímpicos não é uma prova ali da esquina, é uma realidade completamente diferente, tem os melhores e toda a gente treina para aquilo. É a primeira vez que vou a uns Jogos Olímpicos e já me estão a falar de medalhas!
Quando a equipa portuguesa foi campeã europeia de Meia Maratona, em 2016, devido a uma declaração da Jéssica Augusto, o Presidente da Republicam condecorou as atletas, mas foi preciso haver uma “boca”, porque na altura fomos Campeões da Europa em futebol e condecoraram equipa de futebol e o resto foi paisagem. Quando tivemos outras medalhas, noutras modalidades e ninguém tinha feito nada. Às vezes é preciso elucidar as pessoas para saberem que existem mais coisas boas além do futebol.       
 
Existe muita pressão pelo resultado? Como lidas com isso?
Mais ou menos. Eu trabalho para o meu resultado, eu costumo dizer, se eu fizer o meu melhor a minha equipa vai ganhar com isso.
Acho que há mais pressão até em anos de Jogos Olímpicos, as pessoas começam a dizer que querem medalhas, mas isso não me chega, porque eu trabalho e consciencializo-me para o que eu posso fazer, não sou Deus nem faço milagres, trabalho para dar o meu melhor e eu mais que ninguém quero ganhar tudo.
Nós somos a nossa pior pressão, já paguei essa fatura, já me auto pressionei e saí prejudicada por isso, acho que o segredo é tentar libertar das coisas que não nos vem acrescentar nada. Estar concentrados no nosso trabalho.
 
Como vês o atletismo no presente? O que alteravas ou implementavas para o seu crescimento e maior valorização?
É difícil. O atletismo agora está a passar uma fase bastante complicada, é uma modalidade muito exigente. É um desporto individual e só depende de ti. É exigente fisicamente, psicologicamente, tens de treinar muito e bem, e é muito desgastante. Se não tiveres um bom suporte familiar e condições financeiras é muito difícil poderes ser atleta em Portugal. Posso dizer que tenho a felicidade, a sorte de fazer o que eu gosto, ainda me pagam para fazer o que eu gosto, mas nem toda a gente tem a sorte de conseguir viver do atletismo, porque é mesmo muito difícil. Não se ganha muito e tens de ser muito competitivo para conseguires fazer isto e a perspetiva do futuro não é que isto vá melhorar, porque se continuar como tem vindo, cada vez estará pior.
O atletismo está a sofrer um bocadinho da evolução da sociedade, há tanta oferta e vemos os pais a quererem que os rapazes sejam jogadores da bola e que todos venham a ser “Cristianos Ronaldos”, mesmo para cativar os miúdos para a prática do atletismo é muito difícil.
Eu tenho um projeto, atualmente em Lousada, com conjunto com a Câmara Municipal, que é para dar um bocadinho de apoio à população no combate ao sedentarismo. O Projeto é “Vem Correr Com Sara Catarina Ribeiro”, para as pessoas virem treinar, conviver um bocadinho e o que é certo é que o projeto está quase a fazer um ano e até temos tido bastantes pessoas, mas é cada vez mais difícil. No atletismo não há muito para oferecer, a não ser dor, esforço, regra, disciplina. O atletismo é exigente, não é como as modalidades coletivas, que se não estiveres tão bem os outros vão colmatar.
Espero, sinceramente que os miúdos queram experimentar, porque o Atletismo tem várias vertentes e ofertas.
 
Se tivesses o poder de impor uma medida para o melhoramento do atletismo, qual seria?
É difícil dizer uma medida. Há tanto défice, que só uma não iria melhorar grande coisa. Mas diria que o desporto escolar serias uma mais valia, porque poderia ser uma boa rampa de lançamento para alguns miúdos.  
 
Depois do atletismo o que pensas fazer? Queres continuar ligada à Modalidade? Treinadora?
Não me vejo ser treinadora de alta competição, mas também não digo não a nada. Não sei se depois vou voltar à faculdade para terminar o que comecei, mas gostava de ficar ligada à modalidade, se calhar mais na formação de jovens, queria fazer algo mais pela modalidade que tanto me deu.  
 
11 PERGUNTAS RÁPIDAS
 
Local de sonho a visitar? Ilha paradisíaca para não fazer nada, nem levar sapatilhas.  
Qual o teu maior medo? Não poder correr.
Três adjetivos que te definem? Teimosa, persistente e sonhadora
O maior desafio e objetivo desportivo? Ir aos Jogos Olímpicos
O amor para ti é? A família
A maior loucura foi? Ter ficado atleta individual
O que te irrita? Falta de competência e facilitismo
A tua vitória mais saborosa? Campeão Nacional de Corta Mato 2018
O que te faz sorrir? Qualquer coisa. Estou sempre a rir.
És feliz? Sim, muito.
Complexo é? A minha modalidade.
 
 
BOA SORTE
 
 
Entrevistado: Sara Catarina Ribeiro
Entrevistador: Luís Leal
Correção de Texto: Marina Leão
Fotografia e Video: Flávio Sousa 
 

 

 

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Data de publicação: 2020-03-17

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