Fernando Parente "O facto da FPF não permitir subidas é um retrocesso para todos os clubes"
Numa entrevista que procurará ser de carreira, vamos recuar até finais da década de 80, onde começa o seu percurso desportivo no Bragança, e conquistou títulos distritais em iniciados, juvenis e juniores. Que memórias mais relevantes guarda desta passagem, e o que significou este percurso formativo na sua carreira como desportista?
Além dos títulos conquistados, o Grupo Desportivo de Bragança deu-me o sentido coletivo, a responsabilidade e o crescimento/evolução através do treino, que por vezes faltava no futebol de rua, onde grande parte da minha geração começou. As memórias mais relevantes são aquelas que nos marcam de várias formas. Os títulos, os dois treinadores (Ilídio Monteiro e Teixeira), as chamadas à Seleção Distrital para ir disputar os torneios, a excelente campanha da equipa de juvenis onde fomos os únicos a derrotar o FC Porto no nacional, as longas viagens que fazíamos sempre pelas estradas nacionais (para ir jogar ao Porto, Braga ou Viana do Castelo tínhamos de sair no dia anterior), os estágios nos hotéis da Lixa, Gandarela, Afife… O contexto onde estive inserido teve um grande impacto relacionado com a conexão e a aprendizagem sobre o processo de treino e a própria competição em si.
No futebol, ainda representou clubes como o Sendim, o Mãe d'Água e o Águia Vimioso e, pelo meio, uma época de futsal, no Pioneiros de Bragança. Como descreve esta fase inicial do seu trajeto enquanto desportista, maioritariamente passado no futebol?
O futebol era algo que estava no gene familiar (irmãos, primos), algo para o qual me sentia preparado, mas o meu primeiro ano como sénior foi um autêntico choque. Após uma semana a realizar pré-época com os seniores do GD Bragança, de oito juniores que tinham subido apenas ficaram três, sendo os restantes, eu incluído, emprestados. O certo é que fui para Sendim (que distava a 110 km de Bragança), mas apenas realizávamos um treino à sexta-feira e o jogo ao domingo, contrariamente ao que realizava nos treinos da formação no GDB. Depois saltava a diferença entre disputares um distrital ou uma etapa nacional na formação, e um distrital nos seniores. Mas sem dúvida alguma que, passado esse choque inicial, a minha passagem por Sendim me fez crescer como pessoa e como jogador.
Na época de 1997/98, dá-se a entrada na equipa de futsal da AAUTAD, e o início de um longo trajeto na coletividade. De que forma surgiu esta oportunidade de entrar na equipa, e quais os motivos que o levaram a "trocar" o futebol pelo futsal?
Para situar os leitores na altura devida, eu vim transferido da Universidade dos Açores em Dezembro de 1994, e nessa altura já me tinha comprometido com os Pioneiros de Bragança. Pela AAUTAD apenas joguei futebol de 11 pela equipa universitária no segundo semestre desse ano letivo. Nas duas épocas seguintes (1995/96 e 1996/97), conciliei o futebol de sala/futebol de cinco ao sábado, jogando nos Pioneiros e o futebol de 11 ao domingo, jogando no Águia Futebol Clube de Vimioso, pois era permitido jogar em dois clubes diferentes, desde que fossem duas modalidades distintas que não pertencessem à mesma federação. O certo é que durante essas duas épocas, além de jogar federado nos dois clubes acima mencionados, jogava também futsal e futebol de 11 pela equipa universitária da AAUTAD, que era a maneira de manter a forma para jogar ao fim-de-semana. Após duas épocas e meia, acabei por anuir ao apelo do primeiro presidente da Secção de Futebol da AAUTAD, José Manuel Martins (infelizmente já falecido), e aceitei o convite para jogar pela equipa federada de futsal da Associação Académica da UTAD. Essa decisão acabou por chegar ao mesmo tempo da fusão que houve entre o futebol de 5/futebol de sala, ficando a denominar-se futsal, onde a maior parte dos jogadores teve de escolher entre essa e o futebol de 11, pois já não iria ser possível conciliar as duas como até então. Aceitando o convite e sabendo que era peça imprescindível para o projeto que a AAUTAD tinha, foi fácil decidir sobre a troca da modalidade.
Em 1997/98, a equipa da AAUTAD está a competir no campeonato distrital e, depois de três subidas em três épocas seguidas, chega ao convívio dos «grandes» do futsal português. Como se explica tamanho sucesso desta equipa?
O sucesso da equipa da AAUTAD naquelas três épocas consecutivas, em que vamos do distrital da AFVR à 1ª Divisão, foi possível tendo em conta a união do grupo que tínhamos. Nós tornamo-nos a família uns dos outros através da modalidade que escolhemos para representar a nossa Academia. O sucesso alcançado nessas três subidas consecutivas veio através do espírito de grupo, da qualidade dos intervenientes, do nunca desistir do sonho de elevarmos bem alto o nome da AAUTAD e UTAD, mas sobretudo de sermos capazes em todos os jogos de derramar sangue, suor e lágrimas pelo próximo. E sempre que um caía, havia mais 12 ou 13 a levantá-lo. Esse foi um predicado que vigorou durante anos e que muitos dos jogadores que passaram pelos balneários da UTAD, dizem bem alto que não existe outro balneário como aquele.
Para si, enquanto jogador, como correu a adaptação a competições cada vez mais exigentes, e quais as diferenças que mais sentiu entre jogar nos distritais, e na 1ª Divisão Nacional?
Como jogador eu já tinha uma certa experiência do que era uma 1ª Divisão, pois na altura em que representei os Pioneiros de Bragança, era na qual jogávamos, embora aí a mesma fosse dividida em duas zonas. Os embates com o “grande” Miramar, Boavista, Joarte, Touguinhó (agora Rio Ave), Coimbrões e outros, deram-me estaleca para os que tive enquanto jogador da AAUTAD, quer na 3ª, quer na 2ª Divisão. Algo que eu e os meus colegas sabíamos era que, de cada vez que subíssemos um degrau, tínhamos a noção que o seguinte ia pedir mais por nós, e sempre nos mostrámos preparados para tal. Agora, a grande diferença notou-se quando chegámos ao patamar maior. Passas de treinar três vezes por semana para uma pré-época com três treinos diários na primeira semana, dois treinos diários na segunda, e tens noção que afinal tudo o que sabias de futsal, todas aquelas subidas, derivaram do empenho, da dedicação, da entrega. Porque futsal, estávamos a aprender naquele momento. A grande diferença naquela altura, entre jogares num distrital ou numa 1ª Divisão, era sem dúvida a cultura técnico-tática existente, o ritmo de jogo, as bolas paradas e a adaptação a uma realidade diferente da que estava habituado.
Ao longo do seu trajeto como jogador da AAUTAD, e depois AAUTAD/RealFut, que momentos mais o marcaram durante esse período?
Os momentos que mais me marcaram como jogador da AAUTAD foram sem dúvida, tirando obviamente os títulos conquistados e as subidas consecutivas, ter feito amizades para a vida. Não só com aqueles que foram meus colegas de equipa, mas também com bastantes jogadores e treinadores adversários, com os quais ainda mantenho contato. Recordo ainda com orgulho e gratidão a minha convocatória para o Mundial Universitário de Futsal em 2002, na Hungria.
Como momentos negativos, posso referir a morte dum colega nosso da equipa que foi campeã distrital (adormeceu ao volante após a realização duma maratona de futsal), as três operações consecutivas que fiz ao joelho esquerdo, que fizeram com que deixasse de jogar a esse nível aos 32 anos, e os dois anos em que a equipa teve problemas: a primeira vez na época 2004/05 em que, na nossa segunda presença na 1ª Divisão, a equipa esteve para ser extinta e, no final da época em que a mesma acabou, em 2010, depois de marcar presença pela quarta vez numa final da 2ª Divisão.
Como jogador dessa equipa, trabalhou com técnicos como Jorge Braz, Pedro Palas ou Tiago Polido, hoje nomes destacados a nível internacional. O que aprendeu com estes técnicos, e em que medida o inspiraram a seguir, um dia, a carreira de treinador?
Referes três homens que foram sem sombra de dúvida extremamente importantes no meu crescimento como jogador, mas não posso de deixar de referir outros, porque todos eles, nos diversos momentos, deixaram algo de si para que mais tarde eu tivesse seguido a carreira de treinador. O Humberto Fernandes, primeiro treinador da equipa federada da AAUTAD, o Luís Vieira, que nos levou a alcançar a 2ª Divisão, ou o Carlos Freitas e Hélder Teixeira, que nos proporcionaram a subida à 1ª Divisão. Lembro ainda o António Aires e o Emídio Rodrigues, com os quais coincidi na mesma época (2004/05), um na AAUTAD na 1ª Divisão, outro na Realfut, no distrital da AFVR. Mas os que referiste marcaram-me pela maneira como trabalhavam. A seriedade, a entrega, o conhecimento à causa que tinham proporcionaram-me e à equipa um crescimento sustentável. Com o Jorge Braz deu-se um grande boom no futsal da AAUTAD, pena só ter sido por duas épocas. Com o Pedro Palas, foi o continuar e o estabilizar desse mesmo conhecimento. Com o Tiago Polido, além de ser mais novo que alguns de nós, trouxe a novidade, a simplicidade de processos. Em relação a treinadores, deixa-me destacar ainda o Orlando Duarte, aquando da minha presença no Mundial Universitário, muito profissional, do melhor e um exemplo a seguir para mim. Por último, mas não menos importante, alguém que tenho de destacar pela partilha, pelo “confronto” de ideias, pela admiração do seu trabalho, mas sobretudo pela amizade e respeito mútuo e, embora nunca tivesse sido meu treinador, tenho de referir o nome de António Camilo Martins.
Durante estes anos como jogador, e já como treinador da equipa universitária da UTAD, foi campeão nacional em 2003/04, depois de se ter sagrado vice-campeão na temporada anterior. Que explicações podem ser atribuídas a esta «idade de ouro» do futsal transmontano no país, que também se refletia nos resultados das provas federadas?
Fui campeão nacional universitário duas vezes, uma como jogador com Jorge Braz ao leme da equipa universitária em 2002 em Guimarães, outra como treinador em 2004 em Braga, na Final Four Universitária organizada pela X Capital. Fui ainda vice-campeão em 2003 como jogador, na final perdida em Vila Real. Essa idade de ouro, como tu apelidas na pergunta, deveu-se ao enorme trabalho executado pelo Jorge Braz e Pedro Palas com a transição de jogadores da equipa universitária para a equipa federada, pois como deves calcular, numa equipa de uma Universidade, não era fácil ter-se formação. Mas foram-se aproveitando as ideias, trabalhando também as nossas, e fomos evoluindo da forma que a competição se ia desenrolando, quer no universitário, quer no federado. Os resultados foram sempre o reflexo do trabalho realizado e de uma vontade enorme de vencer.
Já como treinador da equipa principal da AAUTAD/RealFut, foi campeão da 2ª Divisão Nacional em 2006/07, e a sua equipa fez mesmo um percurso sensacional na Taça de Portugal, em que chegou à «final-four» com o Benfica, o Sporting e o Braga. Que significado tem uma época destas para si?
Posso afirmar que foi a minha estreia de ouro. No primeiro ano como treinador principal da minha equipa, ser campeão nacional da 2ª Divisão e ter marcado presença na Final Four da Taça de Portugal, onde fomos apenas eliminados em penáltis pelo SC Braga, foi ouro sobre azul. O significado dessa campanha foi ter a noção, que a partir daí, teria de estar cada vez mais preparado para o que estava para vir. É bom ganhar, é ótimo conquistar títulos importantes e chegar longe em outras competições, mas também tinha de ter a noção que as coisas não são eternas, são momentos. Vives os momentos, mas depois trilhas o teu caminho, porque tens a noção que não vai ser sempre assim. Agradecer ao Filipe Almeida, porque foi ele na altura, como diretor desportivo, que fez aposta em mim como treinador.
Durante várias temporadas, a AAUTAD/RealFut escreveu páginas gloriosas no desporto da região, e colocou Vila Real nos grandes palcos do desporto português, com o Fernando Parente a fazer parte desta história. Numa altura em que decorrem quase dez anos desde que o projeto desapareceu, o que pode dizer-se do significado desta coletividade, e de todo o trabalho que a mesma desenvolveu durante várias épocas?
A AAUTAD fez história no futsal nacional. Criou jogadores, formou treinadores, lançou muita gente para a ribalta. Mas, além de ser a rampa de lançamento para muita gente, “exportou” jogadores e treinadores para outras equipas do concelho na altura, o que gerou um enorme desenvolvimento e interesse na modalidade. Vou deixar-te apenas alguns exemplos de jogadores/alunos formados na AAUTAD/UTAD e que viraram treinadores - Emídio Rodrigues e Pedro Palas (Seleções Nacionais), João Nuno Ribeiro (AD Fundão); João Sousa (Contacto Futsal), Rui Cunha (Nun´Alvares Feminino), Tiago Polido (AFC Futsal), Nuno Perdigão (Carrazedo Montenegro), Acácio Machado, Pedro Lima, José Teles, Pedro Feitais, Pedro Sousa, Paulo Gonçalves, Bruno Salgado, Fernando Oliveira, Estevão Cordovil, Cláudio Martins,… - todos eles saídos das equipas federadas ou universitárias da AAUTAD. Esse foi o enorme trabalho desenvolvido e o grande tributo que podemos dar à casa mãe, a proporcionalidade de sermos bons em algo.
O que pode fazer Vila Real e a região para poderem construir um projeto desportivo de dimensão semelhante, fazendo regressar os grandes jogos aos seus pavilhões?
Aqui terão de ser unidos esforços entre várias entidades, Câmara Municipal, AAUTAD/UTAD, Diogo Cão, SVRB, Alves Roçadas, Vila Real, para que haja um projeto desportivo ambicioso e semelhante ao da AAUTAD nesses anos, que nos possibilite voltar a viver e a ter momentos indescritíveis na modalidade. Só assim. Mas mesmo assim temos a noção das dificuldades. E só num projeto uníssono entre todos os representantes, tal seria viável e possível. Agora se optarmos por olhar para o nosso umbigo e tratar apenas das nossas quintas…
Tendo em conta os muitos jogadores da região, ainda hoje no ativo em várias equipas das redondezas, que passaram pela AAUTAD/RealFut e mesmo pelo Boticas, outro dos primodivisionários do distrito, qual a importância que a presença destes emblemas na Primeira Divisão teve no desenvolvimento do futsal regional até aos nossos dias?
A AAUTAD, depois AAUTAD/Realfut, e o Boticas foram, sem desprimor para ninguém, os grandes baluartes da região no que concerne à modalidade entre 2000 e 2010. Mas não se pode apagar a história e também temos de trazer à memória o caminho desbravado pelos Pioneiros de Bragança, Favorita e Contacto (equipas de Chaves), que desbravaram o terreno na modalidade em meados dos anos 90. Mas a importância das mesmas, ou neste caso, das duas primeiras, foi o impacto que ambas tiveram aquando da sua passagem pela 1ª Divisão, em dimensões como a visibilidade que tiveram com as transmissões televisivas, a capacidade de lançar e formar jogadores (alguns deles com relativo sucesso no estrangeiro), a evolução da competitividade e o aperfeiçoar do trabalho técnico-tático.
Quando olha para a formação no futsal, e os jovens que estão a aparecer nos últimos anos, que expectativas tem de que estas novas gerações possam ser capazes de dar um nível de competitividade interessante ao futsal transmontano?
O futsal transmontano só irá evoluir na formação se cada vez mais tiver visibilidade a nível de seleções distritais, se mantivermos a nossa identidade e não ficarmos isolados de tudo o resto. Já temos vários clubes a trabalhar cada vez melhor a formação. A Escola Johnson Januário, o Montalegre, o Macedense, o Valpaços ou os Amigos Abeira Douro são alguns desses bons exemplos. Aqui em Vila Real, o Sport Vila Real e Benfica e o Alves Roçadas também se podem incluir nesse lote. Mas para se ter sucesso e para que algumas das equipas referidas acima consigam ter um nível interessante de competitividade, é preciso ter algo que mantenha esses miúdos na transição de júnior para sénior nessas equipas. Não basta olhar para o imediato e pensar que basta ganhar este ano nos sub-13, ou num outro ano nos sub-15, 17 ou 19, se depois não mantemos a filosofia na equipa sénior. Formar sim, sem formatar, mas depois retirar dividendos. Senão voltamos ao que existe agora. Por muito que se forme e nos diversos escalões, se as equipas que estão, por exemplo, num patamar sénior nacional, não contarem com uma parte de jogadores da região de elevada qualidade, não adianta de muito o resto. Há que formar e bem formar para depois obter o resultado dessa formação. Mas para isso, é preciso dar condições para.
Apenas para encerrar o capítulo do futsal universitário, que balanço faz de todo o trabalho técnico desenvolvido na AAUTAD, ao nível das seleções universitárias?
Entre 2002 e 2010, um balanço extremamente positivo porque sempre tivemos representantes da AAUTAD na Seleção Universitária de futsal, quer na vertente masculina, quer na feminina. E notar que tivemos dois campeões mundiais universitários, o Vítor Hugo que atualmente ainda joga no Mogadourense da 2ª Divisão Nacional, e o Paulo Duarte que deixou a modalidade há duas épocas, terminando a mesma ao serviço do Caxinas. De 2010 em diante e até ao momento atual, um balanço negativo. Não pelos resultados alcançados pela equipa universitária, mas pelas regras impostas pela EUSA e pela FISU tendo em conta os Europeus e Mundiais Universitários. Depois também se torna um pouco inglório para alguns dos representantes das universidades/institutos que, mesmo sendo campeões nacionais universitários, têm poucas chances de ser escolhidos, uma vez que os interesses falam mais alto.
Podendo correr o risco de ser demasiado redutor na análise do seu percurso como treinador, há dois clubes cuja ligação a si mais sobressai, na circunstância dois dos «grandes» do Alto Douro Vinhateiro, o AJAB Tabuaço e os Amigos Abeira Douro. Começando pelo AJAB, treinou esta equipa em competições distintas, desde os distritais à 2ª Divisão Nacional. O que explica esta trajetória ascendente que o clube de um concelho pequeno acabou por ter no futsal nacional, e que análise faz do seu trabalho lá?
Em relação à AJAB Tabuaço, posso afirmar que é um clube que significa muito para mim. A minha primeira passagem foi repleta de êxito, pois na época em que fui contratado, em 2009, fui campeão da Divisão de Honra de AF Viseu, tendo conseguido a subida à extinta terceira divisão. Na época seguinte, 2010-11, tomei uma decisão em dezembro que também posso afirmar que foi a pior decisão tomada por mim enquanto treinador, aquando dum convite venenoso do extinto Chaves Futsal. Estava inserido num projeto ambicioso, quando esse convite me fez vacilar e sair da zona de conforto em que estava inserido. Tive imensa pena, porque sem dúvida o projeto onde estava teve pernas para andar enquanto naquele em que me meti, só saí a perder. A minha segunda passagem pela AJAB Tabuaço, em 2013-14, acabou por se tornar positiva pelo fato de ter conseguido os objetivos. Foi um clube que cresceu a olhos vistos, que soube manter-se na luta e procurou renovar-se nos objetivos, que seriam alcançados, mas que também não fugiu na altura à regra da interioridade. Em suma, bons amigos, bons jogadores, uma equipa com significado.
Nos Amigos Abeira Douro, em quatro épocas que esteve na Régua, obteve quatro manutenções, e ajudou a equipa a estabilizar-se nas competições nacionais, o que voltou a confirmar-se esta temporada. Que fatores contribuíram para consolidar a equipa nos nacionais, e até que ponto o clube tem condições para manter essa presença nos próximos anos?
Antes de mencionar o trabalho nos Amigos Abeira Douro, tenho que realçar aposta do Cândido Machado “Ducho” ao serviço dos iniciados do Sport Vila Real e Benfica. Na altura, e devido à decisão tardia da AJAB Tabuaço em não contar comigo para a época 2014-15, cheguei a pensar que ia estagnar novamente na carreira. Mas o convite formulado e o treinar pela primeira vez uma equipa de formação fez-me sentir importante perante a situação vivida. Essa época e o projeto que tinha para o SVRB, em lançar uma equipa sénior, fizeram-me chegar à equipa dos Amigos. Quatro anos, quatro manutenções conseguidas, uma Supertaça da AF Vila Real. Além de um clube, uma família para mim. Ajudei a equipa a estabilizar nas competições nacionais, mas a equipa também me ajudou a mim. Soubemos trabalhar de forma a dar resposta às contrariedades que fomos tendo ao longo dos quatro anos. E não é fácil quando se está localizado onde a equipa da Régua está. Em quatro épocas, tivemos de nos reinventar e adaptar às exigências de competir dois anos na Série B, sendo a maioria das equipas do Porto, e os dois últimos anos, com as competitivas equipas de Aveiro e Viseu. Os fatores que contribuíram para essa consolidação foram o acreditar no trabalho da equipa técnica, a manutenção da maior parte dos jogadores, a união entre todos, a confiança, honestidade e integridade dos diretores no referente ao meu trabalho, e aqui vou ter de nomear alguns que tiveram uma enorme importância em mim, por acreditarem em mim, pela aposta, mas sobretudo por me fazerem sentir da família dos Amigos Abeira Douro, como o presidente Manuel Mota, o Sr. Luís Cardoso, o Sr. Rodrigo Pinto e o amigo e fisioterapeuta Tiago Carvalho. O clube tem condições para manter essa presença nos nacionais, desde que a aposta na qualidade e manutenção de jogadores continue a ser feita. Desde que a coluna vertebral da equipa se mantenha, o clube terá sempre excelentes hipóteses de continuar a consolidar a sua posição nesses patamares nacionais.

Esta época, no Valpaços Futsal, estava a fazer um trajeto imparável, até que a pandemia colocou um ponto final nas aspirações de uma grande equipa. Até que ponto é justa a decisão de não permitir subidas à 2ª Divisão Nacional, tendo em conta o caso específico do Valpaços Futsal, e da época que estava a conseguir fazer?
Apesar de alguns percalços iniciais a nível da contratação ou manutenção de jogadores, a época estava a decorrer conforme previsto. Não me querendo colocar em bicos de pés, porque nunca o fiz, independentemente do que alcancei ou do que perdi, tínhamos a noção da nossa qualidade, do nosso objetivo e do propósito do Valpaços Futsal para esta época. O facto da FPF não permitir subidas é um retrocesso para todos os clubes, incluindo o Valpaços, que estavam a trabalhar para regressar à 2ª Divisão Nacional. Se me perguntas se achei justo terminarem as competições tendo em conta a pandemia do Covid-19? Claro que sim. Agora se a decisão de não permitirem subidas, foi justa? Não, de todo.
Já treinou em várias realidades e competições, desde a elite do futsal português aos distritais. Até que ponto o mister sonha com o regresso a palcos maiores, e sente-se preparado para isso?
Sonhar todos devemos e todos podemos. O sentir-me preparado, claro que sim. Se há algo que eu sei que estou é preparado para treinar. Agora se é na 2ª, na liga ou no distrital, tanto faz, quero é continuar a crescer como treinador e a potenciar os clubes por onde passo e os jogadores que treino. E sim, já treinei em todas as realidades competitivas, como é referido na pergunta: distrital, 3ª, 2ª e 1ª Divisão. Mas também sabes, tal como eu e muitos mais, que neste momento, treinar na Liga Placard, é muito complicado. Não pela falta de qualidade ou crença no meu trabalho e no da minha equipa técnica, mas porque simplesmente o mercado está mais do que feito para essa competição.
Ao olhar para o trajeto do futsal distrital ao longo dos últimos anos, que avaliação faz da evolução da modalidade, bem como da qualidade de equipas, jogadores e estruturas?
Olha Gonçalo, o que eu senti este ano, ao voltar a treinar no distrital da AFVR, é que as equipas/clubes tiveram um trajeto ascendente em comparação com aquilo que era a realidade competitiva na nossa associação. É claro que a formação de treinadores, a partilha da informação ou a evolução dos próprios dirigentes, acabaram por redundar nessa evolução coletiva. O fato de as entidades oficiais obrigarem os clubes a estar preparados para a realidade atual, com a certificação dos clubes, os graus de treinadores ou os modelos competitivos, tudo isso ajudou, em certa parte a uma evolução e um crescimento gradual da modalidade. Mas, por outro lado, também tem o condão de estagnar aqueles que poucas condições ou estruturas têm e condená-los ao abismo. É preciso muito cuidado nas exigências que se fazem, tendo em conta a disparidades dos clubes de certas regiões do nosso país e ilhas.
Até que ponto acredita que será possível os amantes de futsal transmontanos voltarem a viver as emoções da 1ª Divisão Nacional nos seus pavilhões?
Eu sou um crente por natureza, mas neste momento atual, será muito, mas muito difícil vivenciar momentos como aqueles que eu vivi na Nave dos Desportos da UTAD pela AAUTAD, e o Boticas no seu Pavilhão Municipal. Temos equipas preparadas para o que é a realidade atual da segunda divisão nacional, e aí Carrazedo Montenegro, Macedense, Amigos de Cerva, Pioneiros, Amigos Abeira Douro e Mogadourense mostraram-no, independentemente da conclusão ou não da época em questão. E como eles, outros como o Valpaços Futsal também demostraram em épocas anteriores essa mais valia de permanecer nessas lides. Mas para uma Liga Placard, neste momento atual, muito difícil, para não dizer impossível.
A nível nacional, temos uma seleção a conquistar títulos internacionais, clubes dos mais competitivos do Mundo, e um campeonato dos melhores à escala planetária. Devemos estar otimistas quanto ao futuro do futsal, ou há problemas e fragilidades que têm de ser resolvidos, para que a modalidade se continue a desenvolver?
Se falarmos a nível de trabalho de seleções e dos dois clubes profissionais em Portugal, aí sim, podemos dizer que nas variadas competições em que os mesmos estiverem inseridos, temos condições para ser otimistas. Mas por outro lado também sabemos que existem muitos problemas inerentes à nossa modalidade. Não basta olhar para a Liga Placard e dar atenção a quem mais interessa. Temos de olhar para baixo e construir algo de raiz, dar mais condições a quem não é profissional e aí, possivelmente, teremos campeonatos nacionais com qualidade e mais competitivos, e equipas a subir dos distritais com outro “arcabouço”, como se costuma dizer. Falta implementar uma metodologia e um método de ação que envolva todas as estruturas/clubes, de modo a que os mesmos tenham um crescimento sustentado na modalidade.
Perante a crise que vai chegar, e que terá impactos de vária ordem, de que forma os clubes devem estar preparados para aguentar as adversidades?
Sinceramente, não sei se a maior parte dos clubes irá estar preparada para o que aí vem, ou para o que irá ser a nova época. Primeiro porque existe um impasse enorme em relação a subidas, descidas, quem desiste, quem acaba, quem vai ou merece ser convidado, etc… As adversidades propriamente ditas terão mais a ver com a falta de apoios que pode ser generalizada, mais do que com a falta de soluções para as competições em si. Aqui tenho uma opinião própria de como deviam ser distribuídos os apoios que a FPF deu para o futsal, mas nunca em empréstimos e sim a fundo perdido. Aí sim, seria ajudar os clubes com mais dificuldades, sejam eles do nacional, sejam do distrital.
Até que ponto a crise, com todas as suas implicações financeiras e económicas, não poderá levar vários clubes e concelhos a olhar para o futsal como um investimento mais sustentável e até de grande futuro, tendo em conta que o abaixamento da taxa de natalidade, em especial na última década, tem criado grandes dificuldades para a constituição de equipas de futebol na formação?
Não podemos olhar para a crise que se instalou entre nós como a grande causa de sustentabilidade da nossa modalidade no futuro. Penso que muito do que se pode fazer é, sem dúvida, começar a trabalhar a modalidade a partir das escolas primárias. Isto para que os miúdos, quando cheguem à idade de decisão, não fiquem com dúvidas se farão aposta no futsal ou no futebol. Porque o grande problema de muitos clubes na formação no nosso país não é a falta de miúdos ou a baixa da taxa de natalidade, mas sim o confronto entre as duas modalidades referidas no que concerne ao facto de poder ser um “Ronaldo” ou um “Ricardinho”. Outro problema inerente é tentar mentalizar os pais para os dois exemplos acima dados, mas deixar crescer o filho num ambiente que proporcione ao mesmo a sua evolução, seja qual for a modalidade escolhida. Por último, resta-me agradecer-te por te lembrares de mim, para que eu possa deixar aqui um pouco da minha história. Agradecer também à minha esposa e filhos, pois são eles os maiores prejudicados com a minha ausência pelo enorme gosto que tenho por esta modalidade. Desejar ao Complexo Desportivo as maiores felicidades e que continues com o teu excelente trabalho, e com o teu grandioso dinamismo.

Entrevistador: Gonçalo Novais
Entrevistado: Fernando Parente
Data de publicação: 2020-05-13
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