Márcio Fonseca "A idade nesta fase, sinceramente, joga a meu favor".
Aos 32 anos, Márcio Fonseca é uma das grandes «estrelas» do hóquei em patins da região do Vale do Sousa, e uma referência do desporto paredense.
Como atleta, já jogou em Portugal e em França, e tem já no currículo dois títulos de campeão nacional, ambos arrecadados nos juniores e seniores ao serviço do FC Porto. Em terras gaulesas, era um dos melhores jogadores estrangeiros no campeonato.
Márcio Fonseca já competiu em três divisões nacionais, jogou lado a lado com «estrelas» mundiais da modalidade, e tem uma experiência competitiva que justifica largamente o destaque de uma entrevista.
No fim de uma época em que terminou como o melhor marcador da Zona Norte da 3ª Divisão Nacional, com 38 golos em 16 jogos disputados, o «craque» do Paredes concedeu uma entrevista ao Complexo.pt, em que falou do seu percurso, e dos objetivos que ainda tem definidos para a sua carreira.

Terminou, por força da pandemia, mais uma temporada de alto nível para si, em que terminou como o melhor marcador da Zona Norte da 3ª Divisão Nacional de hóquei em patins. Que balanço faz de uma temporada em que já levava 38 golos marcados?
Obviamente que com um registo destes, só posso considerar que foi uma época positiva, no entanto os golos que fiz não são o mais importante para mim, mas sim a equipa e confesso que para ser uma época totalmente conseguida, só quando a equipa estivesse no primeiro lugar, porque lutámos em todos os jogos para ganhar e trabalhámos muito para isso.
Quais os fatores que poderão explicar este seu excelente momento de forma, que evidenciou novamente esta época?
Por muito que se pode falar e sendo o mais sincero possível, por onde passei fui sempre um jogador que ajudei, não era apenas mais um do plantel. É certo que a maturidade pessoal e desportiva ajuda neste momento de forma. Trabalho para estar bem do ponto de vista físico e, por outro lado, tiro partido da experiência que adquiri ao longo de todos os anos que tenho de pista.
Foi a sua primeira época ao serviço do Paredes, um dos clubes do seu concelho de origem, pois é natural de Sobreira. Que motivos o levaram a aceitar o desafio de rumar a este clube?
Quando as pessoas são verdadeiras e transmitem paixão no que fazem é meio caminho andado. Senti que as pessoas me queriam muito e isso é importante, o treinador que lidera este projeto, que o conheço bem, foi também importante para ter aceitado este desafio e posso dizer que não me arrependi da opção que tomei. São pessoas sérias e que procuram colocar-nos ao dispor todas as condições necessárias para que não possamos ter desculpas.
Quando as provas foram suspensas e, mais tarde, canceladas, o Paredes era um dos segundos classificados e já levava sete vitórias consecutivas no campeonato. O que explica este excelente rendimento da equipa, e até que ponto não fica algum sentimento de desânimo por não ter sido possível lutar pela subida de divisão?
A vida é assim mesmo, não vale a pena estarmos com lamentações. Com esta pandemia o mais importante são as pessoas e a sua saúde. Tenho família e o meu foco estava em protegê-la. É certo que fico triste, mas é mesmo assim. Quanto ao desempenho que a equipa estava a ter, é reflexo do trabalho e do maior entrosamento entre os jogadores. Construiu-se uma equipa nova, os automatismos não se criam de um dia para o outro, mas na fase em que a época foi interrompida, estávamos bem e confiantes.
Em épocas recentes, o Paredes tem mostrado ser uma das equipas mais competitivas da Zona Norte da 3ª Divisão Nacional, e está regularmente próxima dos lugares cimeiros. Até que ponto os paredenses podem acreditar que, no futuro próximo, este nível se pode manter, e grandes alegrias poderão surgir no horizonte do clube no hóquei em patins?
Para isso existir é preciso consistência e estabilidade, é necessário que o clube seja dirigido de modo sustentado para conseguir ter condições e uma equipa competitiva, capaz de ombrear com adversários que apresentam os mesmos objetivos. Na minha opinião estamos no bom caminho, mas a minha opinião pouca importa, a mim cabe-me ajudar a equipa desportivamente e é isso que tento fazer, sabendo que uns dias correm melhores do que outros, mas isso é a vida.
Esta época jogou no seu concelho de origem, mas a sua carreira também começou no seu concelho, nomeadamente em Sobreira. O que o levou, enquanto criança, a começar a prática de hóquei em patins, e de que forma se começou a apaixonar por esta modalidade?
A Sobreira é uma terra de hóquei, existe paixão por esta modalidade, vários jogadores saíram daquele viveiro, jogadores que fizeram uma carreira bonita no hóquei português. Quem me levou foi o meu pai, experimentei, gostei e tinha algum jeito, e a partir daí as coisas aconteceram naturalmente. Mas posso dizer que tenho muito orgulho em dizer que comecei a praticar hóquei numa excelente escola, a Casa do Povo da Sobreira.
Em 1997/98, já jogava nos infantis de um dos grandes clubes portugueses da modalidade, o Valongo. Como surgiu esta oportunidade, e porque rumou a um novo emblema ainda tão jovem?
Foi um processo natural, não só comigo, mas como com muitos outros, quanto te destacas num clube como a Casa do Povo da Sobreira, surgem naturalmente outros convites. A AD Valongo está sempre muito atenta ao que se passa na Sobreira e bem. Julgo que pelo que fazia, acabaram por convidar-me e fui muito feliz nessa casa e cidade que respira hóquei, Valongo.
Grande parte da sua formação, até ao escalão de juniores, é passado no Valongo, num total de oito temporadas. Que balanço faz deste período tão longo neste clube, em que medida as suas competências desportivas evoluíram durante este período, e quais os momentos e pessoas que mais o marcaram durante este tempo?
Oito anos não são oito dias, criam-se laços muito fortes entre as pessoas, é quase uma ligação familiar. Seria injusto destacar nomes, porque me poderia esquecer de algum e seria injusto da minha parte. Tive a sorte de ter dirigentes de grande nível e treinadores de excelência, só tenho a agradecer o que fizeram por mim, mesmo quando na altura não concordava com eles. Não poderia deixar de fazer referência aos meus colegas que partilharam comigo a pista, esses sim, o melhor que tenho do hóquei, onde criei amizades para toda vida.

Em 2005/06, chega ao FC Porto, no seu segundo ano de juniores. Que significado teve para si essa oportunidade de representar um «grande» do desporto internacional?
Apesar de ser o meu clube desde que me conheço, posso dizer que não foi fácil, não porque não quisesse representar o FC Porto, mas sim porque me custava abandonar a AD Valongo, pois sentia-me bem e acarinhado nessa casa. No entanto, acabei por mudar e fui feliz no FC Porto, onde consegui ser campeão nacional de juniores e seniores.
É nesta mesma época que o Márcio celebra o título nacional de juniores. Quais as memórias que guarda desse trajeto e desse troféu?
Ser campeão nacional, numa final four contra o rival Benfica, tendo sido importante nesse objetivo deixa-me orgulhoso e feliz. Todas as equipas trabalham para tentar o título máximo e acabámos por conseguir, é uma sensação indiscritível. Lembro-me que na final, tivemos o apoio da claque do FC Porto, os Super Dragões, que tornaram esse jogo com uma envolvência emocional ainda maior. São muitas sensações em simultâneo, mas todas elas muito boas.
Em 2006/07, é campeão nacional pela equipa principal do FC Porto. Como é sentir que fez parte de um trajeto destes, e ter tido a oportunidade de conviver com atletas como Reinaldo Ventura, Pedro Gil, Edo Bosch, Jorge Silva, Filipe Santos, entre outros, bem como com o técnico Franklim Pais?
Na altura era um menino entre estrelas do clube e da seleção, tentei acima de tudo aprender com eles, porque para além de grandes jogadores, são grandes homens, que me ensinaram coisas importante que vão para além de uma finta ou de um remate. Lidar com todos esses homens é um privilégio que tive na vida e só tenho a agradecer por isso.
Jogou durante duas temporadas no Valongo, quando o clube lutou por lugares cimeiros na tabela classificativa na 1ª Divisão Nacional. Que análise faz deste período?
Só podia fazer um balanço positivo, regresso a uma casa que conhecia bem, primeiro ano de sénior, as pessoas confiavam em mim. O melhor exemplo que posso dar e que recordo ainda, é que no meu primeiro jogo de sénior, faço três golos. A partir daí foi uma sequência natural e foram dois anos fantásticos, quer a nível individual, como coletivo.
Além de jogar em clubes como o HC Braga, Porto Santo ou Carvalhos, alinhou num outro clube da região do Vale do Sousa, o Juventude Pacense. Que memórias tem desse tempo em que representou o Juventude Pacense, e até que ponto acredita que a região tem neste clube um dos emblemas mais capazes de atingir patamares de competitividade mais altos na modalidade, nos próximos anos?
Mais uma vez estive num grande clube, acho mesmo que mais cedo ou mais tarde, vão chegar à divisão principal do hóquei em patins português. Foi um clube que me proporcionou todas as condições e julgo ter estrutura e capacidade para chegar à divisão cimeira.

No seu percurso, tem uma passagem por França, no Noisy le Grand, onde chegou a ser escolhido como um dos melhores jogadores estrangeiros no campeonato, e sagrou-se vice-campeão da taça francesa. Como descreve essa experiência que teve no hóquei em patins francês?
Foi uma experiência de vida maravilhosa, gente do melhor, posso dizer que em França se joga bom hóquei, cada vez estão melhores. Passei anos muito bons, guardo ainda contatos de muita gente que me ajudou na adaptação. Fui reconhecido e acarinhado por todos, mas as saudades da família fizeram com que regressasse a Portugal. Julgo que se não fosse isso, ainda hoje estaria por lá.
Perante a crise que se começa a desenhar no horizonte por força da pandemia, que condicionalismos e impacto poderá ter esta situação na modalidade, e em atletas, técnicos e clubes de hóquei em patins?
Com esta pandemia, percebemos uma coisa simples, é um dia de cada vez. Não podemos pintar cenários, espero que a modalidade não perca com esta situação, mas não sou a pessoa indicada para responder a isso. Acredito que terão de existir medidas diferentes para conseguir manter o nível competitivo dos diferentes campeonatos.
Já disputou as três divisões nacionais e, aos 32 anos, ainda é expectável que venha a disputar mais temporadas como jogador. Que objetivos tem definidos para a sua carreira?
Sou um jogador competitivo e se há coisa que me orgulho é que tento dar sempre o meu melhor. A idade nesta fase, sinceramente, joga a meu favor, até do ponto de vista físico julgo estar melhor. Para além disso, tenho já experiência, que na pista conta muito. Só estou numa equipa vencedora, seja onde for, esse é o primeiro ponto. Neste momento alimento-me da realidade e não de sonhos, e agradeço os contatos que tenho, são acima de tudo um reconhecimento do meu trabalho. Tenho a certeza que quando voltar, irei jogar com felicidade, isso é o mais importante e que estejamos todos bem.
Entrevistador: Gonçalo Novais
Entrevistado: Márcio Fonseca
Data de publicação: 2020-05-14
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