Paulo Ferreira "não havia como dizer que não a pessoas como as que lideram o Cumieira"
Aos 35 anos, Paulo Ferreira prepara-se para abraçar um novo desafio na Divisão de Honra da AF Vila Real, em mais uma etapa de um percurso intenso, marcado por trabalhos difíceis e em condições extremamente exigentes.
No futebol, por detrás dos resultados, precisamos, também como jornalistas, de avaliar os contextos em que os mesmos surgem. E a vida de um treinador competente fica muito mais fácil quando existem recursos financeiros e logísticos que satisfazem largamente as exigências de ter uma equipa de elite, capaz de exibições categóricas e dominadoras.
Todos sonham com condições assim, mas há aqueles que parecem estar destinados a épocas de grandes adversidades, e o entrevistado é um desses casos. Com efeito, Paulo Ferreira já viveu épocas desgastantes como técnico, mas a verdade é que já foi campeão distrital de iniciados, e já fez trabalhos de muito bom nível no Régua e Santa Marta.
A qualidade, que está lá, vai transportá-la para um Cumieira com objetivos desportivos mais humildes, mas em crescendo nas duas últimas épocas. A convicção num futuro promissor, essa, é partilhada nesta entrevista que o técnico aceitou dar, na antecâmara da temporada 2020/21.

Foi notícia recentemente o teu regresso às lides técnicas depois de um ano de interregno, para treinares o Cumieira, na Divisão de Honra da AF Vila Real. De que forma surgiu este desafio, e quais os motivos que te levaram a aceitá-lo?
Antes de mais obrigado por se lembrarem de mim, e parabenizar o vosso magnífico trabalho. Eu não contava com o convite do Cumieira, para ser sincero, estava longe de imaginar que o Cumieira se iria lembrar de mim. Surgiu de forma inesperada digamos, mas teve um sabor especial. O interregno foi do treino, mas estive sempre dentro do distrital e nacional. Os motivos, é fazer uma análise e pensar, o que é melhor? Estar parado, estar no ativo? Estar no ativo, ver que o Cumieira é um clube histórico da AF Vila Real e que, após o seu regresso, tem vindo a melhorar ano após ano, e depois não havia como dizer que não a pessoas como as que lideram o Cumieira, neste caso a sua presidente Isabel.
Qual o projeto desportivo que o Cumieira te apresentou, e que objetivos o clube tem definidos para a próxima temporada?
O Cumieira foi muito simples e direto. Apresentou um projeto de continuidade, apesar da saída do Rui, ao qual desde já mando um abraço de parabéns pelo excelente trabalho desenvolvido no clube. Disse que o objetivo passa por fazer sempre melhor que o ano anterior, lutar e dignificar a camisola do clube em todos os campos de forma briosa, e ser uma equipa disciplinada, lembrando sempre que “não cai o carmo e a trindade” se as coisas não correrem bem…embora eu, os jogadores e a direção queiramos ser melhores todos os dias. E vamos ser. E tentar jogar um futebol positivo, querendo potenciar jovens com qualidade por lapidar.
No que concerne à filosofia de jogo da equipa, que ideias tens na cabeça para o Cumieira, e que equipa tencionas apresentar aos adeptos na próxima temporada?
Quem já foi meu atleta, quem já trabalhou comigo, sabe que privilegio o futebol positivo. Vamos querer ser protagonistas sempre, que conseguirmos ser superiores que o adversário, e quando não o conseguirmos, vamos tentar jogar de forma a valorizar o espetáculo. Sabemos das condicionantes do nosso campo, sim, mas, nós temos que ir atrás do que queremos sem desculpas. Vamos querer potenciar ao máximo os atletas. Encher o Campo da Flávia, trazer o bairrismo de volta. Eu sou muito otimista. Já estive em projetos que lutavam para ser campeões, outros não, o importante é o que defendes e transmites, o que queres e vais atrás. Nós vamos querer ser muito felizes!
Ao olhar para o plantel cumieirense que representou o clube na época que, recentemente, terminou, que ideia tens daquele grupo de jogadores, e quais as mudanças que gostarias de ver operadas no plantel 2020/21? Até perguntando de outra maneira, se eu te perguntasse que perfil gostarias de ver em possíveis reforços da equipa, o que responderias?
Sinceramente, olhando para o plantel da época passada, vejo um plantel recheado de talento e irreverência, que tinha uma mescla de muita juventude e experiência de um ou outro atleta já com anos de futebol e da AF Vila Real. As mudanças não serão muitas. O trabalho que vem vindo a ser feito pela direção tem sido exemplar. O clube está estável, a espinha dorsal da equipa, se tudo correr bem, será mantida. Vamos tentar, de certa forma, apetrechar o clube com jogadores jovens com talento, que possam vir ajudar os que já temos. Quanto a possíveis reforços ainda é muito cedo para poder falar disso.

Em que medida tu e a equipa técnica já estão, em conjunto com a direção, a garantir a continuidade de alguns atletas que, tendo jogado no Cumieira na época passada, gostarias que continuassem no plantel?
Como respondi na questão anterior, a maioria dos atletas vão continuar connosco, gostam do clube, sentem-se bem, são um grupo unido. A presidente nesse aspeto tem estado atenta e feito um trabalho magnífico no sentido de podermos ficar mais fortes e manter o que temos de bom. Não vou individualizar, porque não gosto de o fazer, mas gostaria de ficar com todos os que estão e que queiram ficar connosco. Já estão identificados os que queremos acrescentar e já estamos a trabalhar nisso.
Nas duas últimas épocas, marcadas pelo regresso do Cumieira à Divisão de Honra, o clube registou um 13º posto em 2018/19, e o 11º em 2019/20. O que pode ser feito por ti e por todos, para conseguir melhorar ainda mais a classificação este ano?
Vamos tentar fazer mais e melhor, não sei se vamos conseguir ficar mais acima, porque não controlamos o que as outras equipas farão, só o que controlamos, mas vamos lutar por isso. É muito cedo para falar da classificação final da próxima época, até porque não sabemos quem vai continuar, os clubes que vão desistir, haverá novas equipas, por isso penso ser muito prematuro mesmo para falar disso.
No teu currículo como treinador, tens passagens por dois grandes clubes da região, habitualmente a lutar pelos lugares cimeiros da Divisão de Honra, o Régua e o Santa Marta. O que leva um treinador capaz de lutar por objetivos ambiciosos no plano classificativo, a defender as cores de um clube que não é apontado a esse tipo de prestações?
Porque sou ambicioso e gosto de me pôr à prova. Costumo sempre dizer que se fosse fácil não era para mim. Vejam como assumo o Régua na minha última passagem! Com uma série de dificuldades que apareciam de dia para dia! E eu, como gosto de desafios, assumi o projeto Cumieira com a paixão que me carateriza pelo jogo e pelo treino. Muitos diriam que não, mas é mais uma oportunidade para mostrar o meu valor. E as pessoas desde a primeira abordagem mostraram muito que queriam contar comigo, até atletas vieram falar comigo. Não havia como não voltar.
Enquanto jogador, tens um histórico quase que completamente devotado ao Fontelas, com quatro anos na formação e seis na equipa principal. Que influência teve este período de tempo tão longo na tua formação enquanto homem do futebol, e que jogadores e técnicos mais te marcaram durante este tempo, e porquê?
Foram anos magníficos, em que jogávamos por amor à camisola. Teve uma enorme influência, pois fiz amigos que duram até hoje. Poder partilhar o balneário com os meus melhores amigos foi muito bom. Não havia sintéticos, havia os pelados bons e os maus (risos). Depois houve essencialmente dois técnicos que me marcaram imenso, o Zeca Seminário e o Ricardo Teixeira. Aprendi com os dois muitas coisas. Cada um com a sua forma de liderar e de estar. Tive a felicidade de jogar com o Ricardo Teixeira, que infelizmente já “partiu”, mas marcou-me muito a época em que fui orientado por ele enquanto treinador. Jogadores todos me marcaram de forma positiva sem exceção, pois tento sempre absorver o melhor de cada um.
Ao longo desta década de Fontelas, quais os momentos desportivos que mais te marcaram enquanto desportista, e de que forma os viveste?
Na formação, na primeira época que fiz na formação no Fontelas, tínhamos uma equipa muito competitiva e que lutava para vencer todos os jogos e morremos na praia, não conseguindo ir à fase final de apuramento de campeão, passando a Diogo Cão, Abambres e Vila Real. Na altura o Régua não tinha Sub-17 e nós tínhamos realmente uma equipa muito boa.
Depois, durante essa década, houve momentos que não esquecerei, como a minha estreia pelos seniores do Fontelas com apenas 17 anos, quando o clube nessa altura tinha uma equipa que lutava para ser campeã na extinta primeira divisão distrital. O meu primeiro golo pela equipa sénior com apenas 18 anos. Depois quando passei a ser capitão de equipa. Os jogos em Mesão Frio deixam sempre saudades, pois estavam sempre casas bem compostas. Jogos na Régua. São momentos que não esqueço.

A tua carreira de treinador começa em grande, com a conquista do título distrital de iniciados pelo Régua, em 2009/10. Como descreves essa temporada de luxo, e quais os fatores que estiveram por detrás do grande sucesso dessa equipa?
Aqui relembrar que tinha estado como treinador e coordenador da formação do Fontelas, no qual também tive experiência no futebol feminino.
Agora sim, sem dúvida esse ano foi inesquecível. Foi uma época imaculada, a minha época de estreia no Régua, onde apenas empatámos dois jogos, um na primeira fase em Mondim, e outro na segunda em Escariz, na Diogo Cão, somando por vitórias todos os outros. Campeões invictos. Tínhamos um grupo recheado de jogadores com muito talento mesmo. Foram 26/27 campeões distritais. O sucesso essencialmente passou pelo talento daqueles miúdos que hoje já são uns homens e alguns ainda jogam. Pela forma como eles, vitória após vitória, acreditavam que era possível serem campeões. Tive a sorte de ter encontrado um grupo que vinha de um ano com um trabalho muito bem feito pelo João Pedro, que infelizmente não culminou com o título desejado. E conseguimos usar essa revolta, esse sabor amargo para nos tornarmos melhor a cada treino. É com saudade que lembro esse ano.
Ainda com os iniciados, acompanhaste a equipa na naturalmente difícil época nos nacionais, em 2010/11. De que forma a equipa teve se adaptar a uma realidade competitiva completamente diferente, e como é verdadeiramente este «fosso» competitivo entre os distritais e os nacionais?
Foi um ano difícil, mas diferente da realidade competitiva de agora. Não havia fase de manutenção. A seis jornadas do fim, salvo erro e se a memória não me falha, éramos das melhores defesas. O grande problema é mesmo o fosso competitivo entre a distrital e nacional, porque o raio de recrutamento de atletas é muito maior na zona do Porto do que aqui em Trás-os-Montes. Foi uma época em que tínhamos poucos atletas de segundo ano, quase tudo de primeiro. Eramos um plantel curto, com cerca de 17 atletas. Mas tenho a certeza que se houvesse fase de manutenção tínhamos alcançado esse feito.
De que forma jogar nos nacionais é importante para a evolução tanto de um treinador como de um jovem jogador?
É muito importante, o ritmo de jogo, as dificuldades que o jogo te traz, a capacidade tática das equipas que defrontas é muito superior às da distrital. A intensidade é muito maior. É sempre melhor, porque já “apanhas” equipas que têm um modelo de jogo muito bom, com um projeto de formação bem definido. Não somos nunca favoritos, temos que preparar cada detalhe da partida, as bolas paradas são muito importantes, pois definem muito destes jogos. Participar nos nacionais permite conhecer a realidade do futebol no seu todo, «fora da caixa».
Em 2011/12, tens a oportunidade de treinar a equipa principal do Régua, numa época particularmente difícil para o clube, que a nível desportivo esteve afastado da luta pelos lugares cimeiros. Como surgiu a possibilidade de seres treinador da equipa principal, e como descreves essa época?
Lá está, nestas alturas parece que estou destinado a entrar em cena. O Régua sofreu uma remodelação financeira enorme e o presidente endereçou-me o convite que era impossível rejeitar. Foi a minha primeira época como treinador principal de uma equipa sénior num contexto muito difícil. O Régua tinha orçamento zero. Apostei na «prata da casa», num campeonato dividido em duas séries. Tivemos apenas seis derrotas, julgo eu, e acabámos a disputar o lugar na classificação final com o Montalegre. Penso que ficámos em 12º. Eram 20 equipas. Foi pena não haver continuidade desse projeto pois começaram a aparecer jogadores como o Zé Pedro Gregório que hoje é titular no Vila Real. Mas não foi tão mau quanto isso, porque na época seguinte o Régua ficou bem mais abaixo.
Segue-se na tua carreira o Fontelas, na Divisão de Honra, em 2013/14. Como correu essa época nesse outro grande clube do concelho do Peso da Régua?
Foi mais uma época de aprendizagem, muito difícil, num contexto totalmente diferente. Tivemos uma primeira volta muito má. Era eu e o mister Bruno Carvalhosa, com o qual adorei trabalhar, éramos os dois timoneiros. No cômputo geral, penso que correu dentro do esperado. Apesar da classificação final, fizemos o maior número de pontos do Fontelas na Divisão de Honra.
Só em 2017/18 voltarias aos bancos para representar o ambicioso projeto do FC Santa Marta, clube que também treinarias em parte da época seguinte. Que balanço fazes desse percurso pelo clube penaguiense?
Foi muito bom, numa primeira fase como adjunto do Mister Rosário, depois do meu amigo Armando Coutinho e depois assumindo. Quando assumi o Santa Marta teve a melhor fase e fizemos uma recuperação muito boa na tabela classificativa. Na época seguinte, cometi erros que fazem parte do processo e aprendi imenso com eles. Faço acima de tudo um balanço muito positivo e muito enriquecedor.
Ainda em 2018/19, voltarias ao comando técnico do Régua para levares, numa época bastante atribulada, o clube a um excelente segundo posto no campeonato, em que seria apenas suplantado por um irrepreensível Vila Real. Como foi pegar na equipa principal nessa temporada e conseguir, mesmo numa época complexa, levar o Régua a uma das melhores classificações da sua história recente?
Foi até agora o ano que mais gozo me deu. Tivemos um super Vila Real, que mereceu os títulos que conquistou. O Régua teve 46 ou mais atletas. Houve imensas dificuldades, desde financeiras a problemas diretivos. Houve muitos abandonos, saídas, entradas. Nós, grupo, fomos uns heróis. Refiro-me àquele grupo de 13/14 atletas que levou o barco a bom porto. Conseguimos mesmo assim ser a segunda melhor equipa do campeonato. Ainda tivemos uma fase em que encurtámos a distância para o Vila Real, mas era muito difícil, pois eu sabia que o meu grande objetivo era deixar a equipa onde a encontrei e, acima de tudo, garantir a qualificação para a Taça de Portugal e consegui. Promovi juniores à equipa principal. Foi sem duvida a época em que mais aprendi, e que finalmente só veio provar o que eu acredito, que com dedicação, tudo se consegue. Foi uma prova de fogo, que modéstia à parte superei!
Desde 2008/09, fazes parte do departamento de scouting do FC Porto. Como descreves o trabalho que tens feito, e de que forma já tens conseguido captar talento para o clube?
É um trabalho “invisível”. Nós observamos talento, fazemos relatórios e enviamos para o Departamento de Scouting do FC Porto. Já consegui colocar um ou outro jogador a ser observado, uns têm sorte, outros não chegam a ficar. Mas faz parte do que é a vida de um scout. Não depende apenas de nós. Nós identificamos talento, e o jogador à moda do FC Porto. Depois a avaliação final passa sempre pelo FC Porto. Permitiu conhecer e fazer amizades que nunca esperaria conseguir, e posso afirmar que conheço muito bem toda a formação do FC Porto. Não escondo que sou portista, e é um trabalho que faço por gosto e não me custa.
Já orientaste clubes em situações desportivas complexas, mas também já tens no currículo títulos e excelentes campanhas. Ao estares a poucos meses de completar 36 anos, que objetivos e conquistas gostarias de alcançar, e te sentes preparado para atingir, pelo menos nas épocas mais próximas?
Bem, é verdade, apenas vou fazer 36 anos, e já orientei equipas que tem um grande peso na AF Vila Real, quem diria? O que sinto é que aqui no nosso distrito em Vila Real não temos muito por onde mostrar o nosso valor, e aos chamados agentes desportivos, falta-lhes formação e saber ocupar o lugar que têm. O grande mal do nosso futebol é as pessoas acharem que sabem de futebol quando no fundo nada o sabem. Com isto quero dizer que nem sempre és lembrado pelo que a tua equipa faz e pelo que joga, mas há coisas mais importantes que isso para quem decide e escolhe.
Se for analisar o meu percurso, posso sentir-me tranquilo e consciente que fiz muitas coisas boas, e tenho a certeza que vou fazer ainda mais. Não escondo que um dia gostaria de ser campeão distrital da AF Vila Real, treinar uma equipa do Campeonato de Portugal, voltar a uma nacional de juniores. Há uma série de coisas que gostaria que se pudessem realizar. Todos queremos mais e melhor, chegar mais acima. Se vai acontecer? Não sei, o que sei e digo sempre, é que o próximo jogo é sempre o mais importante, e isso sim preocupa-me. O resto, o que tiver que vir, virá! Temos é que ser fieis a nós próprios e decidir pela nossa cabeça sempre.

Entrevistador: Gonçalo Novais
Entrevistado: Paulo Ferreira
Data de publicação: 2020-05-16
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