ENTREVISTA | Jorge Garrido "pressão desportiva e financeira será enorme para os clubes"
Jorge Garrido é treinador do futsal do FC Paços de Ferreira e vai na próxima época cumprir a 3ª temporadas. Chegou na época 2018/2019 já meio da temporada e conseguiu manter a equipa na divisão Elite, tendo mesmo conseguido a proeza de vencer a Taça AF Porto. Na época 2019/2020 foi desde cedo assumido candidato aos primeiros lugares, posição essa que ocupou por diversas jornadas batendo mais um recorde do clube em jogos consecutivos sem perder. A liderança acabou por valer à sua equipa a subida aos campeonatos nacionais por decisão da FPF, após paragem forçada pela pandemia. Jorge Garrida de 46 anos, é um técnico com ideias bem claras sobre o melhor para o futuro da modalidade, que na próxima época irá conduzir o FC Paços de Ferreira à sua estreia nas competições nacionais.

Entrevista e Texto: Luís Leal
Fotografia e edição: Flávio Sousa
CONHECE MELHOR | 11 perguntas rápidas
Treinador(a) de referência? Nenhum em particular, procuro estar atento aos bons trabalhos que vão sendo realizados.
Local de férias? Praias do Algarve.
Uma grande paixão? O meu filho.
Maior desafio desportivo? Seria liderar uma equipa na Final da UEFA Futsal Champions League.
A maior aventura foi? Ajudar a retirar duas crianças de um carro sinistrado no meio de uma via movimentada na A1.
Dois adjetivos que te definem? Liderança e resiliência.
O que te faz sorrir? Os bons momentos da vida.
O que desilude ? A hipocrisia e falsidade
Paços de Ferreira é? Uma grande instituição desportiva de referência.
Felicidade é? Uma procura constante.
Complexo é? Algo a superar.
Complexo | Com a chegada do Jorge Garrido, ao Paços de Ferreira, conseguiu em 2 épocas chegar aos nacionais. Quais os fatores decisivos para o sucesso?
Jorge Garrido | O sucesso é sempre o resultado de uma enorme conjugação de esforços e vontades e neste processo do Futsal do FC Paços de Ferreira não foi diferente. Eu posso é ter tido o mérito de motivar e mobilizar os jogadores e toda a estrutura diretiva, que tínhamos capacidades e fortes possibilidades de atingir esse sucesso.
Já na minha primeira época, no último terço do nosso Campeonato, fomos dando sinais que nos estávamos a aproximar do nível das melhores equipas da competição, garantimos a manutenção a 4 jornadas do final e ainda fomos a tempo de conquistar a Taça Distrital da AF Porto. Na segunda época, conseguimos dar continuidade ao estatuto de estarmos entre as melhores equipas da competição, continuamos a consolidar e aperfeiçoar todo o nosso processo de trabalho e assumindo em todos os jogos o nosso estatuto de candidato aos lugares cimeiros da classificação.
Na última época o FC Paços de Ferreira andou sempre nos lugares cimeiros, conseguindo mesmo estar na liderança isolada por muitas jornadas até à suspensão, acabou mesmo por ver garantido o objetivo principal com a subida de divisão. Que avaliação faz da última temporada?
Foi uma época fantástica, em que começámos muito bem, tivemos depois dois desaires em dois jogos fora, frente às equipas que se viriam a revelar como os nossos adversários diretos, CCD Ordem e CA Sangemil, mas à 8ª jornada regressamos à liderança para não mais a perder até à data da interrupção e finalização das competições, consequência dos riscos para a saúde publica causados pelo surgimento da atual pandemia do vírus covid-19. Tivemos um registo assinalável de 17 jornadas consecutivas como lideres da competição, e conseguimos também outro registo muito interessante, de 16 jornadas consecutivas sem derrotas, obtendo nessa sequência de jogos um desempenho de 15 vitorias e 1 empate. Estes números conferem na minha perspetiva, uma legitimidade natural para o reconhecimento de mérito desportivo, por parte das entidades que regulam o Futsal, a AF Porto e a FP Futebol, que nestas condições excecionais de pandemia, utilizaram como critério para as promoções das subidas de divisão.
Quais foram os principais fatores, na sua opinião, para que a equipa conseguisse manter a regularidade de bons resultados ao longo da época e terminar na liderança?
Como disse atrás, todo o grupo de trabalho acreditou muito nas suas capacidades, bem como no processo de trabalho proposto e na respetiva liderança, o que foi permitindo ir contornando e superando o acessório, aumentando o foco no fundamental e no coletivo. Só desta forma foi possível atingir níveis de consistência, que nos permitiram consolidar o nosso modelo de jogo, abordar os nossos jogos com grande controlo e competitividade. Foi igualmente fundamental o apoio da estrutura diretiva da seção e da direção do clube, na disponibilização, garantia das condições e meios, para que nada do que estivesse definido faltasse e interferisse com o normal funcionamento de todo o processo de trabalho.
Garantida a subida à 2ª Divisão Nacional de futsal, como analisa a reestruturação do futsal que a Federação Portuguesa Futebol irá implementar nas próximas épocas?
Em parte concordo com o modelo competitivo preconizado para as próximas épocas, mas que só fará sentido se a ideia estratégica a médio prazo for a profissionalização da 1ª Liga de Futsal. Só desta forma se entenderá também o modelo competitivo para uma 2ª divisão nacional a 24 equipas. Saliento também que os números envolvidos atualmente na Liga Placard, se contabilizarmos todos os recursos afetos aos orçamentos das equipas seniores, percebemos que são números que dificilmente poderão continuar a ser movimentados sem um adequado enquadramento legal e fiscal, pois poderá gerar variáveis de concorrência desportiva desleal, além de poder vir a gerar consequências muito complicadas para os jogadores, em caso de sinistro desportivo.
Acho também que o modelo de transição para os quadros competitivos, preconizado para a próxima época, é de enorme pressão para os clubes envolvidos, concretamente no regime de permanências na 2ª divisão nacional, de descidas para a 3ª divisão nacional e para os campeonatos distritais da próxima época. Penso que poderia ser suavizado em mais 2 ou 3 épocas desportivas.
O modelo competitivo da 2ª divisão nacional, anunciado para 2020/2021, coloca uma pressão muito grande para os clubes, desportivamente e financeiramente. Na sua opinião, enquanto técnico, quais são os principais riscos e desafios para a próxima época?
Sem duvida que a pressão desportiva e financeira será enorme para os clubes, o que poderá levar a estratégias muito arriscadas e até mesmo um pouco aventureiras, de apostar forte na primeira fase da competição, marcada por uma inédita fase inicial de jogos a uma volta. O principal risco poderá ter duas vertentes, uma primeira para os clubes que apostam forte financeiramente, que caso não tenham uma sustentação financeira garantida para toda a época, podem vir a ser afetados desportivamente no seu desempenho na fase final da época. Uma segunda vertente para os clubes que mais prudentemente encararem os seus orçamentos, e com isso virem a não ter condições competitivas para se baterem com as que apostaram mais forte, o que conjugado com um sorteio desfavorável, poderá resultar em ficarem logo na primeira fase, arredadas da manutenção na 2ª divisão nacional.

O FC Paços de Ferreira foi dos primeiros emblemas a anunciar a contratação de atletas. O que espera que as novas contratações tragam de diferente ao futsal dos castores, na próxima época?
A nossa estratégia relativamente à formação do plantel para a próxima época, assentou em dois pilares fundamentais. Um primeiro que passou por não desmembrar o grupo de jogadores que permitiu a subida de divisão, uma vez que estão muito identificados com o processo de trabalho e revelam ainda um potencial interessante para continuarem a evoluir. O segundo pilar passou por garantir jogadores com experiência de campeonatos nacionais, preferencialmente da região de Paços de Ferreira e do chamado Vale do Sousa, para facilitar todo o processo de integração no grupo existente. Estou convicto que caso a respetiva adaptação ao processo de trabalho seja positiva, serão reforços muito importantes para elevar os índices competitivos e de experiência da nossa equipa, aspetos determinantes para disputar de forma competitiva e consistente as competições nacionais.
Das contratações, as mais mediáticas foram os 4 atletas vindos do CCD Ordem (Hugo, Rafa, Miguel Tomás e Mário), todos de posições diferentes. A reação do restante plantel à chegada de muitos reforços, muitas das vezes, complica a gestão de balneário ao treinador. A gestão do balneário é algo que o preocupa e que por norma intervém ativamente? De que forma?
Eu prefiro ver esse aspeto numa outra perspetiva, uma vez que não são jogadores desconhecidos para o grupo de trabalho existente, inclusivamente alguns deles já jogaram juntos, o que na minha perspetiva facilita todo o respetivo processo de integração. O meu estilo de liderança é muito ativo e presente, com grande proximidade e interação junto de todo o grupo de trabalho, no sentido de uma mais rápida operacionalização do processo de treino, que assenta muito na preparação e aperfeiçoamento da nossa forma de jogar. Conto também com uma presença ativa e constante do restante staff técnico e diretivo, o que contribui também para melhores níveis de concentração e foco de todos os jogadores nas sessões de treino.
Falando um pouco das saídas do plantel, Miguel Leal "Banana" era um dos mais influentes na organização de jogo, Dani um dos mais irreverentes e desequilibradores, ambos com muitos anos de FC Paços de Ferreira. Como vê as suas saída, que influência terá para a forma da equipa jogar e para o balneário?
São indiscutivelmente dois jovens jogadores que já são valores seguros na modalidade, que estão perfeitamente aptos e preparados para competir nas competições nacionais. Foram sem dúvida muito importantes no nosso trajeto vitorioso, mas infelizmente foram muito assediados, principalmente pelo clube que acabou por os contratar, o AD Jorge Antunes, aonde inclusivamente já lá jogaram nos respetivos escalões de formação, em que lhes apresentaram argumentos financeiros que não foram possíveis para nós acompanharmos, uma vez que estão fora da nossa atual realidade orçamental. É lógico que foi uma perda importante para nós e para eles, porque estou em crer que iriam consumar a sua posição de jogadores de competições nacionais, porque não podemos esquecer que o Miguel Leal vai apenas para a sua terceira época como sénior e que o Dani vai apenas para a sua segunda época como sénior. Penso que conseguiremos colmatar bem estas duas perdas, com a real mais valia dos nossos reforços, bem como com a valia dos nossos jovens jogadores, que transitam para a sua primeira época sénior e que irão evoluir na nossa recém criada equipa B. Haverá uma atenção especial à sua evolução e desempenho, no sentido de serem criadas oportunidades para poderem vir a jogar na equipa principal sénior.
O FC Paços de Ferreira irá ter equipa B na próxima temporada. O modelo de jogo entre a equipa principal e equipa B será o mesmo?
Exatamente, o modelo de jogo será o mesmo, essencialmente ao nível dos grandes princípios organizativos, quer do processo ofensivo quer do processo defensivo.
Arnaldo Coelho será o técnico da equipa de Juniores e Equipa B. O que espera do trabalho que irá ser desenvolvido de forma a poder potenciar a equipa principal?
O Arnaldo Coelho assentou bem no perfil que definimos para essas funções, uma vez que além de ser um grande Pacense, tem uma vasta experiência quer em liderança de equipas seniores como em equipas de formação, além de ser um grande entusiasta da modalidade. Estou convicto que saberá aliar a exigência de vitoria e competitividade, com o acompanhamento e paciência necessários para uma evolução tranquila e consistente nos nossos jovens jogadores. Apesar da necessidade de implementação do mesmo modelo de jogo da equipa principal nas equipas B e de juniores, haverá espaço também
para implementação das suas próprias ideias de jogo, uma vez que não será um processo rígido e fechado, o que beneficiará o seu trabalho e todo o processo de potenciação do valor dos jovens jogadores.
Os atletas não convocados para os jogos da equipa principal irão rodar na equipa B?
Exatamente, mais que rodar vão acrescentar qualidade e ajudar a implementar os principais princípios do modelo de jogo da equipa principal, no sentido de elevar os níveis competitivos da equipa B, que permitam lutar pela subida de divisão.

Dentro do modelo de jogo, quais são os princípios de jogo, quer ofensivamente quer defensivamente, que mais destacaria como identidade da equipa nesses dois processos?
Destacaria apenas alguns dos principais princípios de jogo, nomeadamente em termos defensivos com a organização da nossa defesa em zona, com a definição clara de zonas de pressão sobre o portador da bola, e a utilização constante de coberturas defensivas, alternando constantemente o posicionamento defensivo entre três e duas linhas defensivas, bem como o posicionamento a dois corredores.
A nível ofensivo a opção preferencial pelo sistema 1x3x1, com exploração constante do jogo exterior combinado com apoios interiores, resultante das nossas ações coletivas definidas, bem como de um aproveitamento constante dos vários momentos de jogo, com a definição de ações estratégicas nas bolas paradas, nomeadamente em situações de cantos, reposições laterais ofensivos e livres. Uma das nossas principais características coletivas que pretendemos dar continuidade, é o de uma equipa muito compacta defensivamente em diferentes zonas do campo, capaz de recuperar frequentemente a bola nas primeiras e segundas linhas defensivas, que permita desencadear rápidos contra-ataques em superioridade numérica, além de uma grande capacidade de reação à perda de bola, bem como um grande compromisso coletivo com os diferentes momentos defensivos. Outra das nossas características coletivas, será sermos também ofensivamente muito intensos, em coerência com o nosso padrão de movimentos, com uma orientação constante do nosso jogo para o reduto defensivo adversário, atraindo para depois inverter rápido e assim conseguir espaço para ações de finalização.
O Futsal, atualmente, passa por uma fase de nova adaptação, considerando que se está a preparar a profissionalização. Como analisa a profissionalização do futsal para o seu crescimento e desenvolvimento? Quais seriam os principais efeitos no futsal português?
Penso que a profissionalização será um processo natural a médio prazo, porque como também disse atrás será uma forma de vir a acautelar melhor os interesses dos vários agentes intervenientes na modalidade, nomeadamente dos jogadores e dos treinadores. Destacaria por exemplo as situações de incumprimento e de lesões, que quando conjugadas, podem resultar em situações extremamente negativas para a vida pessoal de um atleta, em que está totalmente exposto à boa vontade e seriedade dos dirigentes, não podendo recorrer nem a um seguro de acidentes de trabalho nem a qualquer subsidio ou fundo salarial, que o proteja enquanto esteja parado. Por outro lado a estrutura diretiva e técnica da FPF, que gere toda a organização das competições de futsal, bem como as dos denominados grandes, SLB e SCP, já são profissionalizadas, portanto será alargar esta condição às restantes estruturas das equipas que competem na nossa principal Liga de Futsal e regular todo o quadro de licenciamento legal e desportivo dessa competição profissional. Se queremos que o atual crescimento do Futsal Português seja sustentado e ainda melhorado, teremos de ter os vários protagonistas dedicados a tempo inteiro à modalidade e à competição. Não deveremos ter receio de dar passos em frente, nem andar a pensar de forma romântica e saudosista a evolução da modalidade. Penso até que se o processo de licenciamento de equipas profissionais de futsal for objetivo e claro, será uma oportunidade para as equipas representativas dos distritos do interior, que têm por exemplo dificuldade em chegar ás grandes competições de futebol pelos valores que comporta, poderem concentrar e canalizar recursos de menos exigência, para um bom projeto de Futsal profissional, assim haja uma
perceção de valor para as comunidades dessas regiões.
Os clubes de futebol profissional estão, cada vez mais, a querer implementar-se no futsal. Vê algum risco para a modalidade, para os jovens praticantes portugueses, assim como para os clubes de menor capacidade financeira?
Penso que não, pelo contrario, acho que é benéfico para a modalidade, porque efetivamente a entrada desses clubes, que são autênticas marcas desportivas, vão tornar o Futsal mais interessante para novos públicos, mais atrativo para novos e melhores patrocinadores e mais apelativo para um maior numero de praticantes. A melhoria das perspetivas para os jovens praticantes portugueses, passa por alargar o seu espaço competitivo de formação para além do escalão de juniores (sub19 e sub20), com a criação de equipas de sub23 e/ou equipas B, e isso só será possível com clubes melhores
estruturados logisticamente e financeiramente. Esses espaços competitivos permitirão uma melhor preparação e amadurecimento, para um acesso mais consistente ás principais equipas e competições. Haverá sempre espaço para clubes de menor capacidade financeira competirem, é a ordem e a dinâmica natural das coisas, agora acho que não será a melhor estratégia para a evolução da modalidade, nivelar por baixo a qualidade das competições, especialmente as nacionais.
Os objetivos traçados pelo FC Paços de Ferreira, passa a breve prazo colocar o futsal na Liga Placard?
Sem dúvida que sim, agora diria mais a médio prazo, uma vez que não será seguramente a qualquer preço e de forma pouco estruturada, porque como tem dito o Presidente do Clube em diversas ocasiões, o Futebol profissional será sempre a grande locomotiva do clube, que estando bem desportivamente, abre espaço para o Futsal do clube reforçar os seus meios e a sua estrutura. Sendo um dos traços fortes da identidade do clube, honrar os compromissos e dar os passos sempre de forma segura e sustentada, esse objetivo não será seguramente uma obsessão, mas uma consequência natural do trabalho de qualidade que se venha a realizar, e das condições bem estruturadas que sejam asseguradas para o suportar.
A próxima época será de uma grande exigência. Para si, pessoalmente, quais serão os principais desafios enquanto técnico?
O grande desafio para mim será sem duvida alguma dotar a equipa de capacidade competitiva, para se bater com as melhores equipas que iremos defrontar, por forma a estarmos mais perto de conseguir atingir os nossos objetivos desportivos mais otimistas. O grande objetivo passa por assegurar permanência da equipa principal nos campeonatos nacionais, no entanto irei direcionar todo o esforço e empenho para a manutenção na 2ª divisão nacional.
As expetativas dos adeptos para a próxima época são grandes. Que mensagem gostaria de deixar aos adeptos pacenses?
Que continuem a acreditar em nós, reforçando o seu apoio, pois têm sido um suplemento extra de motivação, especialmente nos jogos em casa, o que poderá vir a fazer toda a diferença na conquista dos lugares cimeiros das classificações.

Data de publicação: 2020-07-26
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