ENTREVISTA "o desafio é gigantesco e vai exigir o máximo de todos"
Tem 32 anos, é natural de Chaves e é mais um jovem e promissor treinador do futebol transmontano, com uma subida aos nacionais no currículo, com o Vidago.
Depois de um curto, mas enriquecedor trajeto como guarda-redes, Vítor Gamito coleciona épocas muito bem conseguidas na Divisão de Honra da AF Vila Real como treinador e até já passou pelo futebol espanhol, onde privou no Levante, com treinadores de grande categoria, na La Liga, como Rubi ou Lucas Alcaraz.
Com muitas incertezas a pairar nestes tempos de pandemia, mas com os trabalhos já a terem lugar com vista à preparação para o Campeonato de Portugal.

Entrevistador | Gonçalo Novais
Entrevistado | Vitór Gamito
COMPLEXO | Comecemos esta entrevista mais aprofundada pelo regresso às origens, aos primeiros passos neste percurso pelo futebol, que começa no Chaves. Como foram estes primeiros tempos, e que importância tiveram estes primeiros dois ou três anos como atleta, na preparação competitiva para os escalões seguintes?
VITOR GAMITO | Comecei no Desportivo de Chaves, onde joguei em todos os escalões desde as escolinhas até aos seniores. Como qualquer criança de Chaves que goste de praticar futebol, fui pela mão do meu pai às captações do Desportivo num sábado de manhã, e logo no final do treino fui convidado a ficar no clube.
Desde os iniciados até aos juniores, escalões em que também já se disputam provas nacionais, continuou a merecer a confiança do Chaves durante todo o trajeto. Que importância teve para si, enquanto jovem futebolista, competir naquele que é, provavelmente, o maior clube de futebol transmontano da atualidade?
Para além de ser de forma incontestável o maior clube de Trás-os-Montes, é o clube do meu coração. Somos de uma geração que realmente sentia a camisola e a responsabilidade que era representar um clube desta grandeza principalmente nos campeonatos nacionais. Esse percurso foi sem dúvida determinante no meu trajeto desportivo, mas principalmente na minha formação como cidadão a quem agradeço a todos quantos passaram pelo Departamento de Futebol Juvenil do Desportivo.
Quais os momentos e conquistas que, durante a sua formação, mais o marcaram, e porquê?
Os títulos distritais são sempre saborosos, mas recordo com mais carinho a campanha no Nacional de Juniores da 2ª Divisão, onde após um mau começo fizemos uma volta inteira a ganhar, que ainda hoje é recorde no clube, e não subimos de divisão de forma muito injusta num playoff frente à UD Oliveirense.
Se tivesse que elencar pessoas que, ao longo dos seus vários anos no Desportivo, mais contribuíram para o seu desenvolvimento desportivo e aprofundamento de competências e conhecimentos na modalidade, quem destacaria e porquê?
Com tanta gente que ao longo de 13 anos nos ajudou quer a mim quer aos meus colegas a sermos melhores futebolistas e cidadãos em condições muito diferentes às que existem hoje em dia, é difícil e injusto destacar alguém. Todos eles, de uma forma ou outra, tiveram um contributo pelo qual hoje em dia se devem orgulhar.
Era guarda-redes. Qual a descrição que fazia de si enquanto guardião das balizas das suas equipas, e até onde acha que o seu potencial o poderia levar?
Penso que me destacava pela leitura de jogo e pela velocidade e agilidade dentro dos postes. O potencial que tinha levou-me a fazer uma carreira mediana dentro do panorama regional, se bem que admito que com outro tipo de oportunidades pudesse ter atingido outro patamar.
O seu percurso no futebol sénior foi curtinho, mas ainda assim com aspetos interessantes nessa carreira, que me arrisco a dizer que podemos dividi-la em duas etapas, uma em que o Vítor representa clubes do interior, e outra em que alinha em emblemas do distrito do Porto. Nos clubes do interior, tanto fez parte de clubes integrados na 3ª Divisão Nacional, como o Morais ou o Vila Real, ou em equipas competitivas do Régua. Até que ponto estes anos o fizeram compreender tanto o trabalho que é necessário fazer para se montar uma boa equipa nos distritais, como as dificuldades que depois se sentem nas competições nacionais?
Representei clubes da região nos campeonatos nacionais enquanto tinha a "chama acesa" que poderia atingir outro patamar. A determinada altura optei por deixar o futebol para segundo plano, e fui para a universidade licenciar-me em Educação Física e Desporto. A partir daí representei clubes da zona do Porto onde estava a estudar. Todas essas vivências contribuíram sobremaneira para hoje em dia ser melhor treinador.
Entre 2011/12 e 2014/15, representa três clubes da 1ª Divisão da AF Porto, o Senhora da Hora, o Pedrouços e o Leverense. Quais as diferenças de competitividade que encontrou do lado litoral da região norte, e quais as vivências e ensinamentos mais importantes que retém desse período?
Diferenças enormes em termos competitivos, principalmente nas equipas da cauda da tabela, onde é possível ganhar e perder em qualquer campo. Tive a felicidade de subir de divisão no Pedrouços, e recordo-me das tardes de estádios cheios e futebol extremamente competitivo da AF Porto.
Em que medida ter sido guarda-redes contribuiu para que, mais tarde, se pudesse aperfeiçoar enquanto treinador?
Vemos inúmeros ex-guarda-redes a obterem sucesso enquanto treinadores, e exemplos disso temos na região o André David ou a nível internacional o Nuno Espírito Santo, mas não tenho uma opinião formada sobre se ter sido guarda-redes possa ser um beneficio como treinador, em relação a ter sido jogador em qualquer outra posição.
Que treinadores mais o inspiraram e contribuíram para que se tornasse alguém capaz de liderar equipas como técnico principal?
O Prof. Luís Pimentel no Vila Real, pela forma como se relacionava e agregava os atletas, e o António Caldas no Desportivo de Chaves pela metodologia de treino e modelo de jogo.

Quais as circunstâncias que levaram à sua decisão de abandonar as balizas e rumar a Espanha, para se tornar treinador-adjunto da equipa de juniores do Levante?
Quando entrei para a faculdade o meu objetivo passava por me licenciar em Educação Física e dar aulas, ter alguma garantia de futuro. Foi já no final desse percurso que decidi prosseguir os estudos para o Mestrado em Treino Desportivo de Alto Rendimento no ISMAI, e quer pela minha paixão pelo treino, quer por me reconhecer capacidades que podem levar-me a atingir um nível superior ao que obtive enquanto atleta, decidi apostar nesta carreira quando surgiu a possibilidade de poder realizar o meu estágio curricular no Levante UD.
Que descrição nos pode fazer da sua passagem pelo futebol espanhol, e em que medida ter trabalhado num clube de elite numa das maiores potências mundiais da modalidade?
Passagem marcante onde passei um ano incrível a "beber" futebol, pois para além de treinar também estava a escrever a minha tese de mestrado. A nível de estrutura, organização e filosofia penso que a grande diferença para o futebol espanhol, generalizando, é que tudo o que é visto em relação a condições para a prática de futebol é visto como um "investimento" e não como um "gasto", num contexto onde a procura pela melhoria quer das condições de trabalho físicas quer de recursos humanos é um processo inacabado. O facto de poder conviver diariamente e ver o trabalho de equipas técnicas de elite como o Rubi, que esta época treinou no Bétis de Sevilha, ou o mister Lucas Alcaraz, com muitos anos de La Liga, foi extremamente enriquecedor.
Em 2016/17, regista-se a sua primeira experiência como treinador principal, no Vilar de Perdizes. Como correu essa época de estreia «a solo» na liderança de um grupo de homens, e quais as maiores exigências e dificuldades que teve de enfrentar para se adaptar à sua função?
Foi um ano fantástico e agradeço ao presidente Márcio Rodrigues pela aposta num treinador de apenas 28 anos, que na época não era tão usual, e que felizmente conseguiu ser bem-sucedida, o que levou a que as portas se abrissem a outros jovens. A maior dificuldade teve que ver com as condições de treino, pois passei de ter dois sintéticos à disposição para uma unidade de treino, a ter disponível meio campo pelado porque a outra metade estava congelada muitas vezes com o frio rigoroso que se fazia sentir. A nível de liderança encontrei um grupo de Homens com «H gigante» que trabalhavam muito e se entregaram de corpo e alma ás minhas ideias, e fizemos uma segunda volta histórica com 40 pontos em 15 jornadas, num total de 13 vitórias, um empate e uma derrota, numa temporada que guardo com muito carinho, quer pelo ano de estreia como técnico, quer pelo grupo fantástico que tive o privilégio de liderar.
Em 2017/18, regressa à formação do Chaves, para treinar os juniores nos Nacionais. Até que ponto esta experiência como técnico num contexto de maior competitividade ajudou ao seu desenvolvimento como treinador, e em que aspetos sente ter crescido mais?
Cresci muito nesse curto período de tempo, principalmente nos aspetos extra-futebol. Foram quatro meses equivalentes a um Mestrado. Apesar de ser uma equipa teoricamente de formação, fui contratado não para um projeto mas sim para dar resultados a uma equipa que não tinha objetivamente condições para os obter.
Em 2018/19, surge o Vidago. Como se proporcionou a oportunidade, e quais os motivos que o levaram a aceitar liderar a equipa?
Fui abordado pelo diretor desportivo Bruno Castelo no sentido de voltar a colocar o Vidago nos lugares que correspondem ao seu historial. Após algumas reuniões com o presidente Paulo Lopes, contagiaram-me com a ilusão do projeto que tinham para o clube e fizeram-me sentir desejado. Após ter saído do Chaves queria um projeto que me desse garantias de sucesso, e até rejeitei algumas propostas, mas achei que o projeto que o Vidago me estava a propor tinha a minha «cara», pelo que aceitei o desafio e não estou nada arrependido, porque é gente pela qual vale a pena trabalhar.
Nessa primeira temporada, a equipa seria 11ª da geral, longe da fantástica classificação da época seguinte. Qual o trabalho que teve de ser feito para melhorar substancialmente a equipa e prepará-la para o sucesso que obteve na temporada seguinte?
Quando entrei no final dessa temporada, foi já a projetar a temporada seguinte, e foi essa a mensagem que foi passada tanto à estrutura como ao plantel para as jornadas que faltavam. A exigência iria aumentar a todos os níveis e só assim se poderia sequer pensar em poder atingir outros objetivos. Esses meses serviram essencialmente de adaptação minha ao clube e vice-versa e de estruturação do clube a nível desportivo.
Que Vidago foi este que, em 2019/20, «brilhou» na Honra da AF Vila Real, e assegurou o regresso aos campeonatos nacionais?
Foi um Vidago brilhante, que liderou a competição durante seis meses, e que durante sete semanas foi o melhor ataque de todos os Campeonatos em Portugal. Conseguimos criar um grupo fortíssimo a nível de qualidade individual e principalmente de uma união que se fazia notar domingo após domingo, arrastando connosco centenas de adeptos todos os fins-de-semana. O covid-19 levou-nos do céu ao inferno num espaço de semanas. Gostaríamos de ter festejado dentro de campo, mas penso que esta subida é justíssima e estou convicto que em "condições normais", no final do campeonato isso iria acontecer.
Com sete reforços já anunciados e vários dos jogadores mais influentes da equipa a continuarem no plantel, o que se pode esperar do Vidago versão 2020/21, ao nível do estilo de jogo que pretende implementar?
O modelo de jogo é como um BI de um treinador, pelo que o que se pode esperar do Vidago 20/21 é uma equipa à imagem das equipas que por mim foram treinadas. Uma equipa super competitiva, organizada, arrojada e com um modelo de jogo atrativo que possa potenciar os seus jovens jogadores e principalmente a procura em todos os jogos de forma incessante por aquilo que valida qualquer modelo de jogo, que são as vitórias.
Que mais-valias e aspetos positivos pode trazer esta equipa a série em que estiver inscrita no Campeonato de Portugal? Isto é, em que medida este Vidago pode vir a ser uma equipa interessante de acompanhar ao longo da época?
Em primeiro lugar, e caso isso seja possível dado os tempos em que vivemos, a massa adepta. Absolutamente fantástica e sem paralelo na região, será sem dúvida uma mais-valia para este campeonato. Depois penso que temos matéria humana suficiente, quer no plantel quer na equipa técnica, para fazer com que um adepto comum de futebol que não seja adepto do clube se possa entusiasmar pelo jogo a que o Vidago se vai propor jogar.
Quais as maiores dificuldades que espera que a equipa venha a sentir no Campeonato de Portugal?
As dificuldades normais de um clube do interior que acaba de subir ao Campeonato de Portugal. Temos que ter a noção que o Vidago apenas participou em toda a sua história uma vez nos campeonatos nacionais, pelo que vai ser a estreia no Campeonato de Portugal para o clube. Para mim e muitos jogadores, o desafio é gigantesco e vai exigir o máximo de todos, mas sentimos ter capacidade para dar uma resposta positiva. A manutenção por si só seria histórica, mas queremos mais, queremos ser uma das boas surpresas deste campeonato!

A próxima temporada será também de transição para uma reorganização dos quadros competitivos na época seguinte, em que vai ser criado um quarto escalão nacional. Qual a sua opinião sobre os novos formatos das competições futebolísticas nacionais?
Os quadros competitivos com que mais me identifico são os que eram utilizados há 20 anos atrás. Uma 2ª B com três séries de 20 equipas, as Zona Norte, Centro e Sul onde subia o primeiro de cada série, e depois a 3ª Divisão com oito séries de 16/18 equipas. Penso que o formato atual está completamente desajustado e a mudança dos quadros competitivos a cada três ou quatro anos é demonstrativa da falta de convicção sobre aquilo que será o melhor formato por parte das entidades competentes.
Outro dos aspetos veiculados na comunicação social tem sido o da incerteza em que os clubes vivem quanto ao cumprimento de protocolos sanitários exigentes, bem como relativamente aos moldes em que toda a próxima época se vai processar, em tempos de pandemia. De que forma toda esta incerteza condiciona o trabalho que é realizado nos clubes?
Condiciona toda a preparação trabalhar sobre a incerteza. Vivemos tempos únicos na História Mundial e é preciso que haja coerência na forma como podemos voltar à "normalidade" com o mínimo de segurança. É preciso coragem para tomar uma decisão relativamente a todo este processo, mas é fundamental que essa decisão ocorra em tempo útil por respeito não só aos clubes como a toda a indústria que se alimenta do desporto.
Para si, enquanto treinador, até que ponto estes novos tempos serão desafiantes no âmbito da gestão da motivação dos atletas, e das interrogações de muitos deles em relação ao início de toda a temporada?
É uma gestão única porque não há termo de comparação com alguma situação do género que já tenha sido vivida. Desde o receio de ser contagiado e contagiar à incerteza sobre datas e normas acerca do inicio da competição, são inúmeros os fatores sobre os quais temos que lidar. Basicamente temos que planificar diariamente porque não sabemos com o que podemos contar no dia de amanhã.
Para um clube como o Vidago, do interior norte do país, que impacto tem esta pandemia no projeto desportivo do clube?
Impacto tremendo, pois com um apoio da Câmara já de si bastante menor quando comparado com outros municípios, temos uma recetividade a nível de patrocínios que estará certamente menos predisposta do que estaria em condições "normais" da economia. Mas acredito que a Direção do Vidago FC conseguirá agregar, como tem sido habitual, os apoios necessários para o seu projeto desportivo, e uma vez mais fazer das fraquezas forças para superar este desafio enorme que se avizinha.
Para alguém que contactou com as realidades futebolísticas de interior e litoral, qual o trabalho que deve ser feito para combater o desequilíbrio competitivo entre emblemas de regiões diferentes do país, possibilitando um desenvolvimento mais harmonioso desta modalidade?
O desequilíbrio competitivo tem que ser encarado com alguma naturalidade, pois é impossível ter o mesmo nível competitivo com tamanha desigualdade em termos de recursos humanos, instalações e condições económicas. Isto não significa que não haja possibilidade de aumentar o nível competitivo dentro de uma região, mas creio ser mais importante olhar para dentro e não tentar imitar e adaptar realidades distintas, e nesse aspeto tiro o chapéu ao trabalho superlativo que tem feito a Associação de Futebol de Vila Real nos últimos anos, nomeadamente pelo seu coordenador técnico Carlos Soares, cujo trabalho estrutural em prol do desenvolvimento do futebol na região tem sido de notar. A nível de campeonato sénior, urge a criação de uma nova divisão, pelo que julgo saber também é vontade da Associação e irá certamente dar um incremento competitivo necessário à Divisão de Honra da AFVR.
Já treinou na formação, passou pelos distritais e agora chega aos nacionais. Sendo ainda tão jovem, que objetivos pensa poder atingir nos próximos tempos na sua carreira?
Tinha como objetivo chegar aos campeonatos nacionais até aos 35 anos. Neste momento tenho como objetivo estabilizar neste campeonato para depois pensar em dar o passo seguinte pois a carreira de treinador é isto mesmo, uma constante redefinição de objetivos.
Fotos: Vidago FC
Data de publicação: 2020-08-16
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