ENTREVISTA "existe uma evolução positiva do “jogo” nos distritais"
Filipe Coimbra é um homem do futebol, de jogador a treinador muitos são os anos ligados à modalidade, com uma presença forte e bem vincada pelos clubes onde passou.
Filipe Coimbra tem no seu currículo subidas de divisão e agora em Varziela procura novamente fazer história ao colocar a equipa do Varziela na Divisão Honra.
Atualmente, a sua equipa lidera à condição a 1ª Divisão Distrital AF Porto, mas a paragem veio colocar muitas incertezas na competição.
11 PERGUNTAS RÁPIDAS
Um presidente tem de ser? José Ricardo
Cor preferida? Azul, mas o verde persegue-me.
Cidade a visitar? Rio de Janeiro
Como te defines? Amigo do seu Amigo, Sincero e Honesto
A tua paixão? A minha filha.
Filme de uma vida? A lista de Schindler
A maior loucura foi? Ser treinador de futebol.
Personalidade de referência? N/R
O que te faz rir? Os amigos
O que te desconcentra? Jogadores que não se apliquem
Complexo é? Uma página de informação desportiva regional de grande interesse.

Complexo - Quando e como iniciaste a tua ligação ao Futebol?
Filipe Coimbra - Comecei com 11 anos a jogar em França, entretanto os meus pais voltaram para Portugal e segui o meu percurso no Amarante FC, onde estive durante 5 épocas. Duas como júnior e duas como sénior, no início da terceira transferi-me para o Lixa, onde permaneci até acabar a minha carreira como jogador. Entretanto, fiz uma pausa do futebol e reiniciei como treinador de formação em 2000.
Como treinador, passagens pelo Lixa, Aparecida e Vila Meã, que balanço fazes do percurso até este momento?
Nem sempre foi fácil. No entanto, com um trabalho determinado, com objetivos previamente bem estabelecidos, com rigor e dedicação, atingi muito dos objetivos a que me tinha proposto e propostos a nível de clube/equipa. De facto, tanto no FC Lixa, como Aparecida FC, os objetivos foram plenamente atingidos, o que culminou com a subida de divisão dos referidos clubes. Quando ingressei no AC Vila Meã, deparei-me com um clube muito bem organizado, com excelentes condições de trabalho. Infelizmente, a equipa encontrava-se numa fase negativa em termos de resultados e não conseguimos inverter a situação.
No capítulo das emoções, qual o ponto alto que destacas na tua carreira?
Tenho dois momentos marcantes a este nível: um quando representava o FC Lixa e o clube estava na primeira posição da tabela classificativa, a 10 pontos do segundo classificado e, infelizmente, saí do clube de uma forma injusta e incorreta.
Destaco, também, outro momento aquando da minha primeira passagem no Aparecida FC, onde conseguimos uma série de 20 vitórias consecutivas, que culminou com a desejada subida de divisão e, consequentemente, o título de campeão de série.
Todos os treinadores têm uma referência em que se baseiam. Quais os técnicos que admiras?
Não tenho nenhuma referência específica, admiro parte do trabalho apresentado por alguns técnicos, nomeadamente Jorge Jesus, pela sua cultura tática, o Sérgio Conceição pela paixão que demonstra e o Jürgen Klopp pela sua liderança. Leio livros de autores portugueses, de onde consigo retirar várias ideias, linhas de orientação, que me ajudam a definir muitos aspetos importantes para a minha função como treinador.
Na tua metodologia de jogo/treino, treinas mais do que um sistema tático?
Quem nos segue atentamente (Varziela) e quem me conhece, sabe que defendo muito o 4-4-2.
Quem treina três treinos por semana, não tem muito tempo para treinar 2 sistemas, por isso entendo que os meus jogadores devem ter este sistema bem definido, onde todos sabem o que fazer com e sem bola, os espaços que devem ocupar. Sabe que mesmo a este nível neste momento existem clubes com observadores ou a possibilidade de serem os treinadores a observarem jogos, já que muitos se realizam aos sábados, o que faz com que não existem muitos segredos entre as equipas. Por isso, sou um defensor de trabalhar/focar-me bem num sistema e trabalhar melhor as bolas paradas ofensivas/defensivas. Os mais pequenos pormenores fazem cada vez mais a diferença.
Atualmente, orientas o Varziela, líder e principal sensação da série 2 da 1ª Divisão. Como conseguiste potenciar a tua equipa de modo a ser agora uma das fortes candidatas à subida?
Inicialmente sabia que tinha um grande problema! Vivido também no Aparecida, aquando da colocação do sintético, andar novamente com a casa às costas, porque infelizmente o campo do Varziela não tem as medidas exigidas pela AF Porto. Mas, encontrei um clube muito bem organizado, com uma estrutura diretiva muito jovem, dedicada, liderada pelo presidente José Ricardo, formando assim um grupo de jovens apaixonados pelo clube e pela sua terra, capazes de tudo para que nada falte aos jogadores.
Tendo em conta esse aspeto diretivo, é mais fácil poderes construir um plantel forte à imagem daquilo que esta divisão exigia e que este clube merecia. Conseguimos juntar a irreverência dos mais novos com a experiência de alguns jogadores. Todos eles acreditaram no projeto, nas ideias, no objetivo e o objetivo inicialmente era a manutenção. Demorou algum tempo até alguns entenderem as ideias, o pretendido para equipa e só para a equipa. A exigência e o sacrifício são uma constante e isso fez que muitos tivessem dificuldades na fase inicial do campeonato, com isso a equipa não consegui na primeira volta resultados de acordo com as exibições. Por isso, não concordo muito quando olham para nós como equipa sensação, quem conhece esta equipa sabe o valor destes jogadores, do que eles são capazes.
O clube tem sido notícia um pouco por todo o lado, inclusive, na televisão, devido à enorme falange de apoio. Sentes que eles podem ser uma base importante para projetar o clube para outros patamares?
Eles são a base do nosso sucesso, muita gente não imagina do que são capazes, os sacrifícios que fazem para nos acompanhar. As nossas vitórias são sempre para eles em primeiro de tudo. Muitas vezes comentamos no grupo, que não encontramos palavras de agradecimentos suficientes pelo apoio sentido. Sentimos que jogamos sempre em casa, são incansáveis durante os 90 minutos. Com esta gente, esta direção, o Varziela conseguiria manter-se numa divisão superior.
O clube está a apostar em força na implementação de camadas jovens e com resultados que têm gerado muita espectativa. Tens acompanhado essa evolução formativa?
Claro que acompanho, a formação é a base do crescimento sustentado de um clube, quem não pensa desta forma no futebol atual, muito mal está. Existe neste momento três equipas de formação, uma sub-9, uma sub-13 e a equipa sub-19. O meu adjunto o Filipe é treinador dos sub-13 e um dos capitães da equipa, o Antero, é treinador dos sub-9. Sempre que posso assisto aos jogos dos sub-19, tendo em conta que alguns desses jogadores já há alguns meses treinam com a equipa sénior, um deles, o Barros estreou-se no último jogo, no Vila Boa do Bispo. Isso demonstra que o clube está atento a quem é dedicado e trabalha em prol do Varziela.
Consideras que o Varziela tem condições logísticas e financeiras para poder disputar uma divisão de Honra em caso de subida?
Boa pergunta para o Presidente...
Sei que até á data, tentaram chegar acordo com os proprietários de terrenos adjacentes ao campo, para alargamento do campo, infelizmente não conseguiram. Existe outras 2 soluções em curso, há projetos, mas agora com este problema do COVID-19 veio alterar tudo, como a vida de todos.
O que lhe posso garantir, conhecendo como conheço esta direção é que não vão desistir com facilidade até conseguirem essas condições logísticas.
A nível financeiro é tudo muito subjetivo, não é as direções que oferecem mais, não é as equipas que tem jogadores a receberem mais que ganham os jogos. De que vale a pena ter esses jogadores mais valiosos nesses patamares, se depois, não sentem o peso do emblema que defendem, não sentem o clube, não jogam com paixão.

Voltando à equipa sénior, quando diriges uma palestra ao grupo de trabalho, que ideia-base costumas abordar?
Escolho sempre um tema motivacional para iniciar a palestra, do trabalho da direção, do sacrifício dos adeptos, do nosso percurso, do nosso futuro. Vou-lhe confidenciar que esta época conseguimos que as famílias de todos os jogadores entrassem no balneário no meio da palestra, isso tudo combinado, sem o conhecimento dos jogadores claro. Foi um momento marcante, conseguimos o objetivo.
A seguir a esses momentos relembro algumas situações que poderão acontecer no desenrolar do jogo, aquilo que devemos fazer com e sem bola. Tento falar o menos possível do adversário e focar-me mais naquilo que devemos e temos que fazer. Isso sim é importante.
Devido à pandemia Covid-19, os campeonatos estão suspensos por tempo indeterminado. Na tua opinião, qual o impacto terá na vida dos clubes? A conclusão dos campeonatos sob as atuais classificações é uma medida aceitável?
Na minha opinião, quer a curto ou médio prazo, os clubes irão ressentir-se principalmente a nível financeiro. O facto de não haver jogos e não estando ainda de parte a possibilidade do término dos campeonatos, estão assim comprometidas as receitas dos jogos bem como os patrocínios. A longo prazo, destaco também, a possibilidade de existir o esmagamento da economia local/nacional, o que poderá comprometer também os orçamentos dos clubes.
Responder a essa pergunta torna-se muito complicado dependendo da evolução da situação causada pelo COVID-19. Se a situação evoluísse positivamente, de forma rápida, considero que a conclusão dos campeonatos seriam a mais justa para todos. Caso este adiamento se torne muito longo, faz então mais sentido terminarem os campeonatos com as atuais classificações para não comprometer o início da próxima época.
Como achas que vai reagir a equipa se tiver de voltar para concluir a temporada? Quais vão ser as maiores dificuldades?
Tentamos estar sempre em contacto através das redes sociais. A equipa estava num excelente momento com cinco vitórias consecutivas, sei que estão ansiosos por acabar o que começamos.
A maior dificuldade será a nível físico, conseguir estar ao mesmo nível, será de todo impossível.
Tentaremos estar o mais perto possível daquilo que estávamos há 15 dias atrás.
A AF Porto terá um papel fundamental nesse reinício, dar tempo necessário para as equipas se prepararem minimamente para os jogos finais.
Tendo em conta a tua vasta experiência, sentes que cada vez mais aquela velha máxima do “chuta para a frente e seja o que Deus quiser”, já não se adequa aos campeonatos da AF Porto?
Essa velha máxima continua a existir, mas noutros termos, “bloco baixo e transições ofensivas diretas”, ainda se vê uma ou outra equipa a utilizar esse tipo de jogo, não sou nada adepto em nenhuma circunstância do jogo, mas essas equipas conseguem resultados positivos. Pelo que vejo é que existe uma evolução positiva do “jogo” nos distritais. Em cada divisão e pelos jogos que vou assistindo, existe bastante equilíbrio entre as equipas, conseguem vencer mais vezes as equipas que trabalham de forma mais séria.
Para finalizar, a próxima época passa pelo Varziela independentemente da subida ou não? Já há algumas conversações que possas adiantar? Que mensagens queres deixar aos associados e adeptos do Varziela?
É um clube onde me sinto bem, onde todos os dias nos respeitam, independentemente dos resultados. Onde todos os domingos sentimos o que é a paixão pelo Futebol, onde se vê famílias inteiras deslocarem-se para nos apoiar, onde existe e sentimos a verdadeira essência do Futebol. Neste momento não estou preocupado com isso, muito sinceramente. Tenho falado com o Presidente, mas sobre a situação social atual, de futebol pouco, mais sobre as saudades que temos, nada de futuro.
Aos adeptos agradecemos-lhes publicamente por tudo o que vinham a fazer por este grupo. Só estamos afastados fisicamente.
FIQUEM EM CASA por favor, ainda temos muito para conquistar juntos.
“SOMOS UM POVO CHEIO DE RAÇA, QUE NÃO SE VERGA POR NADA”
#UmLegadoARespeitar

Entrevistador:. Luís Leal
Entrevistado: Filipe Coimbra
Fotos: CCRD Varziela /Filipe Coimbra
Data de publicação: 2020-03-23
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