ENTREVISTA "gostava de um dia chegar às seleções nacionais"
Rute Carvalho é treinadora da equipa feminina sénior de futsal do GD Chaves, assim como nas Escolas de Futsal Johnson Januário. Uma jovem treinadora com nível II, é licenciada em psicologia do desporto, natural de Valpaços, que teve nesta uma época agridoce.
Numa entrevista aberta foram abordados diversos temas, do descobrir da paixão pelo futsal, à situação atual da paragem de competições, ao balanço da temporada, à sua ideia de jogo, aos sonhos e objetivos de Rute Carvalho.
11 PERGUNTAS RÁPIDAS
Treinador(a) de referência? Jorge Braz e Pedro Palas
Cidade favorita? Barcelona
Cor favorita? Azul
A tua grande paixão? O treino
Estilo musical? Rock
Uma loucura? Uma tatuagem de 20cm x 30cm (aproximadamente)
Dois adjetivos que te definem?Transparente e rigorosa
Um dia marcante na tua vida? O dia do falecimento do meu pai
O que te dececiona? A incompetência e desonestidade
Felicidade é…? Fazer o que gostamos, de forma livre e próximo daqueles que amamos.
Complexo é? Não errar e não ferir ao querer ser justo para toda a gente.

Entrevistado: Rute Carvalho
COMPLEXO – Como surgiu a tua paixão pelo futsal e em te tornares treinadora?
Rute Carvalho – A paixão surgiu enquanto jogadora. Desde muito pequena que jogava na minha aldeia com os rapazes, mas por falta de clubes próximos só comecei a jogar federada com 16 anos, até lá só jogava oficialmente no desporto escolar. Quanto ao treino, surgiu um pouco por acidente. Infelizmente joguei muito pouco tempo (cerca de apenas 8 épocas), porque tinha consecutivas lesões, até que decidi abandonar completamente o futsal. Um pouco antes de abandonar, durante alguns períodos onde estava lesionada, e por força da necessidade, tive uma pequena experiência como treinadora da equipa universitária da UTAD (tendo inclusivamente ganho um prémio de melhor treinadora das modalidades coletivas da AA UTAD), mas ficou por aí a experiência, porque tinha sempre em mente ser jogadora, pois era essa a minha prioridade. Mais tarde, terminei a minha formação em Psicologia do Desporto e ingressei num clube da minha zona para fazer estágio profissional enquanto psicóloga; como tinham falta de treinadores e como eu tinha algum conhecimento da modalidade fiquei a ajudar o treinador dos infantis que, a meio da época, saiu por motivos profissionais e eu assumi a equipa como treinadora principal – terminando a época 2014/2015. Desde aí nunca mais estive sem treinar e fui indo em crescendo, descobrindo acidentalmente uma paixão na qual decidi investir muito tempo pessoal.
Não são muitas as mulheres treinadoras, quais são os maiores desafios que sentes na afirmação do teu trabalho?
Honestamente, não tenho sentido muito a discriminação. Sou bem aceite no meio e pelos treinadores que, inclusivamente, valorizam bastante o meu trabalho. Tive já a experiência de treinar seniores masculinos, quer como treinadora adjunta (na 2ª divisão no GD Macedense) e como treinadora principal (distrital da AF Bragança no AR Alfandeguense). Na primeira experiência, fui sempre muito bem recebida e acolhida pelos jogadores e sentia até que me respeitavam imenso, tendo até algum cuidado no trato que tinham comigo, sendo muito protetores (aí senti discriminação, mas positiva!). Na segunda experiência, não tive qualquer tipo de problemas com jogadores, nem com desrespeito por parte dos mesmos ou do meu trabalho, contudo, aí sim, senti algumas dificuldades perante os adeptos; acho que me julgaram à partida por ser mulher e nunca deram o benefício da dúvida, não dando margem para que o trabalho surtisse o efeito desejado.
Como vês a evolução do futsal feminino nacional e em particular na região transmontana?
A nível nacional nota-se evolução a passos largos. Há cada vez mais jogadoras muito dotadas, o jogo é cada vez mais evoluído em termos táticos e a intensidade e equilíbrio com que se disputam alguns jogos, não ficam a dever nada ao futsal masculino. Aqui na região já não é tanto assim, pois infelizmente há uma base de recrutamento muito pequena e as equipas vão sobrevivendo à custa de jogadoras que aparecem na UTAD para estudar. Por força da falta de jogadoras os campeonatos são muito pouco competitivos, o que não permite que as equipas cheguem à taça nacional com condições de disputar fases mais avançadas da competição, estando muito aquém de equipas que disputam três ou quatro vezes mais jogos nos seus distritais. Temos algumas jogadoras com qualidade acima da média, com presenças regulares em seleções nacionais, contudo quando chegam à idade sénior já não fazem parte desta base de recrutamento, pois acabam por ir estudar para fora e são raras as que se mantêm por aqui.
Com a paragem relacionada com a pandemia COVID-19, quais foram as indicações que deste à tua equipa? Quais as medidas adotadas?
As jogadoras têm um plano de treino que devem realizar em casa, ao longo do tempo de paragem. Felizmente, a grande parte das jogadoras são formadas ou estudantes de desporto e, por isso, estão habilitadas para planear e controlar o seu próprio treino, dentro das indicações dadas por nós. Trabalhamos num nível muito amador, portanto não haveria muito a fazer além disto, infelizmente. Tendo em conta que falta apenas 1 ou 2 jogos para terminarmos a época (Taça de Portugal), e sem sabermos quando e se será retomada a competição, não lhes foi passado, para já, conteúdo tático (teórico, claro está!). Vamos comunicando e aferindo o estado físico e psicológico de cada uma delas, vamos conversando via whatsapp para mantermos o contacto. Se, entretanto, recebermos indicações sobre a nova data da competição começaremos a trabalhar de forma mais específica, essencialmente a nível teórico.
Quais as maiores consequências que esta paragem trará às equipas e às competições na próxima temporada?
Receio que sejam várias e bastante negativas. Tudo depende se esta época será retomada ou se ficará assim encerrada. Se for terminada, talvez se consiga recuperar a normalidade na próxima época, iniciando as pré-épocas um pouco mais cedo, eventualmente (ou não parando entre uma época e a outra – tudo depende da calendarização). Corremos o risco de as equipas perderem um pouco da sua identidade nesta fase; por exemplo a equipa de juvenis que treino este ano esteve a época toda a trabalhar de forma a atingir o máximo rendimento nesta fase, que seria o início da taça nacional do escalão e neste momento não sabemos quando e se a vamos disputar e se acontecer já não vamos apresentar-nos no nível que idealizamos, porque quer queiramos quer não há perdas de rendimento e skills dos jogadores, precisamos de mais tempo para preparação que, possivelmente não iremos ter. Neste momento, é tudo uma incerteza e tanto treinadores, como jogadores e dirigentes, não sabem muito bem como agir. Vai tudo ser feito de forma diferente, isso é certo, desde os planeamentos ao recrutamento de jogadores, à definição de objetivos. É algo para o qual ninguém estava preparado.
Que balanço fazes a esta temporada, tendo em conta que ainda falta realizar uma jornada?
No caso do GD Chaves a época foi um fracasso. Falta realizar uma jornada que não influenciará nada e que, devido ao panorama atual, provavelmente, até nem será realizada. Amenizamos um pouco a desilusão do não atingimento do objetivo principal ao conseguirmos uma presença histórica na final-four da Taça de Portugal, mas que não invalida a má prestação que apresentamos ao longo da maior parte da época, que culminou com a descida de divisão. Desejamos que, pelo menos, consigamos realizar a final-four para encerrar a época e um ciclo marcante, com sabor agridoce, mas marcante para todas nós.
Na última época, a equipa conseguiu a manutenção na reta final, este ano as coisas não correram tão bem. Quais foram os principais motivos?
O principal motivo e o que falhou está já identificado, que foi a má gestão de expectativas – que era da minha responsabilidade e não consegui controlar. Na época passada fizemos muito com pouco, beneficiando de algumas circunstâncias que nos ajudaram, mas fomos competentes e obstinadas para obter aquilo que ninguém acreditaria que conseguiríamos. Com poucas jogadoras conseguimos fazer uma época difícil, mas cumprir o objetivo. Este ano começamos bem no recrutamento e conseguimos alguns reforços (algo que foi impossível na época anterior) e por isso as pessoas (jogadoras, adeptos, etc.) acharam que, se na época anterior conseguiram, este ano iria ser fácil. O problema é que os reforços, apesar de terem muita qualidade e acrescentarem valor à equipa, trouxeram uma coisa que se fez notar muito: inexperiência. É certo que tivemos 5 entradas, mas tivemos 3 saídas. 5 jogadoras novas, das quais apenas uma tinha experiência (de apenas uma época) de campeonato nacional, ao passo que as jogadoras que saíram estavam no GD Chaves desde sempre e já com muito traquejo e, além disso, faziam parte da espinha dorsal do grupo. A juntar a isto, um volume de treino inferior à época anterior (menos 1 hora por semana) e um deficiente apoio logístico que decorreu desde o primeiro dia – a título de exemplo, a pré-época teve de ser replaneada dia após dia, porque nunca tinha certezas de instalações disponíveis, ou o facto de em várias ocasiões, durante o decorrer do campeonato, termos ficado sem pavilhão para treinar (por diversas razões inerentes ao município) e fazermos microciclos (antes de jogos importantes) com apenas uma unidade de treino. Tudo isto conta e influencia muito no trabalho e rendimento da equipa, principalmente quando se fala de um grupo reestruturado e que necessitaria de tempo e estabilidade.

Sentes que tens mais dificuldades na construção e preparação de uma equipa competitiva pelo facto de ser no interior de Portugal? Quais os fatores?
Sinto e tenho a certeza que sim. O principal fator é a base de recrutamento de jogadoras, que é escassa ou quase inexistente. Para irmos recrutar um pouco mais longe é preciso algum apoio financeiro e jogadoras que estejam dispostas a fazer as deslocações. As jogadoras com mais experiência e qualidade têm clubes mais perto das suas residências e é muito difícil aceitarem o convite de virem para Chaves. Precisaríamos de muito mais apoios e interesse da comunidade em geral, algo que, infelizmente, não existe neste momento em Chaves. É uma luta desigual.
Aliado ao teu modelo de jogo, como caracterizas a tua equipa pela forma de jogar?
É uma equipa coesa e solidária e que gosta de assumir o jogo. É uma equipa “sem paciência”, pois assume o jogo em qualquer circunstância, ainda que muitas vezes não seja o momento mais indicado para o fazer, mas dificilmente somos capazes de abdicar da nossa identidade. Defensivamente, gostamos de mandar no jogo, de condicionar e ludibriar o adversário. Ofensivamente, somos objetivas e gostamos de bola no pé, ainda que nem sempre o consigamos fazer e por vezes temos que nos adaptar.
Quais sentes que são as maiores dificuldades dos atletas ao passares a tua ideia de jogo?
Eu dou muito poder de decisão aos meus atletas, essencialmente no capítulo ofensivo e sinto que nem sempre eles são capazes dessa tomada de decisão, porque não estão habituados. Não é uma decisão totalmente livre, mas de acordo com o que é preconizado e com os princípios e sub-princípios que quero implementar e talvez isso lhes cause alguma confusão numa fase inicial. O meu jogo é muito cognitivo e é necessário assimilar alguns conceitos básicos que servem como ponto de partida para o desenvolver das ações individuais e coletivas e nem sempre os atletas correspondem com essa capacidade, porque não entendem que eles são os donos do jogo e, muitas vezes, esperam que seja eu a decidir por eles. Sinto também que têm algumas dificuldades iniciais em assimilar algumas ideias muito próprias que lhes tento transmitir, mas quando entendem o porquê de determinadas ações acabam por realizar com êxito e prazer – é o verdadeiro “primeiro estranha-se e depois entranha-se!”. Aliás, vejo alguns atletas (ou ex) que são também treinadores a aplicar essas minhas ideias nas suas equipas, que é sempre um sinal positivo de aceitação do que eu defendo.
Quais são as tuas maiores expectativas enquanto treinadora de futsal?
Eu pretendo continuar a crescer e dar um salto maior na minha carreira. Gostava de ser posta à prova noutro contexto, numa equipa “maior”, eventualmente. Nunca escondi que gostava de um dia chegar às seleções nacionais (sem especificar género ou escalão), mas sei que não é um percurso fácil. Apesar de não ter tido uma experiência muito bem-sucedida quando fui treinadora principal de um escalão sénior masculino, ainda tenciono voltar a esse papel e, quiçá, fazer alguma história ao ser a primeira mulher a conquistar títulos e troféus nesse papel. Mas as expectativas não são demasiado elevadas, porque estou ciente da limitação que impõe a minha “localização geográfica”, e, portanto, tenho os pés bem assentes no chão e sei que algumas das experiências que gostaria de vivenciar só seriam possíveis se o fizesse em exclusividade profissional.
Para a próxima época irás continuar na liderança da equipa feminina do GD Chaves?
Não posso adiantar nada relativamente a este assunto, visto que as primeiras pessoas com quem devo falar sobre o mesmo será a direção e as jogadoras.
Queres deixar alguma mensagem para as tuas equipas e adeptos?
Às minhas equipas quero dizer que se mantenham fortes e determinadas nesta fase mais complicada. Estamos afastados fisicamente, mas todos ansiosos por voltar. Vamos aproveitar este tempo para refletir sobre os nossos percursos e para voltarmos melhores.Aos adeptos da modalidade, não desesperem. Vai tudo ficar bem. Espero que venham a ouvir falar muito de mim num futuro próximo (RISOS!!!!).

Texto: Redação
Foto: Rute Carvalho / GD Chaves
Data de publicação: 2020-03-27
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